No início do Brasileiro escrevi neste mesmo espaço que o Palmeiras era, ao menos no papel, um dos favoritos ao título. Não me arrependo do que disse. Com o goleiro mais eficiente da última Copa do Mundo (Marcos), um lateral artilheiro, excepcional nos cruzamentos e perigosíssimo nas cobranças de falta (Arce), um meio-campista consagrado, talentoso na articulação de jogadas e disciplinado taticamente (Zinho), além de um trio de atacantes habilidosos (Muñoz, Dodô e Nenê), o clube tinha - e continua tendo - um plantel bastante qualificado.
Quantos clubes possuem um elenco assim? Não responda ainda, estimado leitor. Permita-me, antes, reformular a pergunta para torná-la mais clara e direta: o Juventude, líder isolado do certame, pode se dizer detentor de um plantel com tamanha qualidade? É evidente que não. Quantos jogadores do glorioso time de Caxias do Sul eram conhecidos antes do Brasileirão? Um? Dois? E quantos deles podem ser listados entre os melhores do mundo em suas posições - como Marcos e Arce - ou possuem experiência numa Copa do Mundo, como estes dois e ainda Zinho? Nenhum, claro. Portanto, não acho que ''Queremos time!'' seja, no momento, o bordão mais oportuno da massa alviverde.
Passemos ao Fluminense, que ontem foi humilhado no Morumbi. Por dois anos seguidos, e com uma base bastante parecida com a atual, o clube finalizou em terceiro na fase de classificação do Campeonato Brasileiro. No ano passado, quase chegou à final. Foi parado pelo campeão Atlético-PR num jogo dramático, disputado em Curitiba. Este ano, apesar de reforçado pela garra de Beto e pelo inacreditável talento goleador de Romário, o time cumpre campanha medíocre. A torcida tricolor queixa-se da fragilidade da equipe. Será mesmo assim? Ora, basta lembrar o que os jogadores que deixaram a equipe - Roger e Paulo César - sofreram até conquistar o respeito parcial das arquibancadas para percebermos que a história não é bem esta. ''Queremos time!'' também não parece ser o grito mais apropriado para os fanáticos das Laranjeiras.
Querem mais exemplos? O Flamengo, com o mesmo grupo que agora freqüenta posições intermediárias, fez uma belíssima campanha na Copa dos Campeões, com atuações entusiasmadas e convincentes. Tão convincentes quanto as exibições contra Fluminense e Atlético-PR no campeonato atual. Infelizmente, até prova em contrário, tais exibições parecem não ter passado de soluços de qualidade numa campanha fosca. Os torcedores do Flamengo têm até um pouco mais de razão quando clamam por nomes de peso, mas o time atual já provou que pode jogar bem quando tem vontade.
Vontade - eis aqui a palavra-chave para entender o que vem acontecendo com bons times, inicialmente cotados para disputar o título, que não conseguiram deslanchar no Brasileirão. Times como os citados Palmeiras, Fluminense e Flamengo, aos quais poderíamos agregar o Grêmio, o Cruzeiro, o Vasco e o próprio Paysandu - de quem, após a conquista inédita da Copa dos Campeões, poderíamos esperar atuações mais destacadas. Vontade também é o conceito ao qual deveremos recorrer, se quisermos entender a excelente participação de times que começaram sem grandes esperanças no torneio e agora estão entre os seus destaques - caso do próprio Juventude, mas também de Guarani, Portuguesa, Coritiba e Santos.
Antes que alguém se anime em apontar os técnicos como os grandes culpados pelas más campanhas dos times, me apresso em esclarecer o que sempre achei do papel deles no futebol: meros coadjuvantes. Técnico não ganha jogo. São, antes, como juízes de futebol: quanto menos aparecem, melhor. O mesmo Luxemburgo que foi gênio no Palmeiras é agora vilão no Cruzeiro. A verdade não está nos extremos. Nem tão geniais, nem tão vilões, os técnicos não são bem sucedidos quando colocam em prática sofisticados desenhos táticos, mas quando conseguem unir o grupo e motivar os atletas, evitando ciumeiras e crises internas. O mérito de treinadores como Parreira, Oswaldo, Felipão, Geninho e Picerni é este: deixar os jogadores à vontade e com vontade. Na maioria das vezes, isso é o que falta às equipes que vão mal - e não um lateral esquerdo, um volante ou um zagueiro.
Num futebol como o nosso, com tamanho nivelamento das equipes, no qual três ou quatro pontos podem separar o oitavo do 20º, a vontade de um grupo pode fazer toda a diferença. Antes de gritar o surrado e inadequado ''Queremos time!'', o torcedor deveria investir a força dos seus sofridos pulmões no bom e velho ''Queremos raça!'' - raça aqui entendida como nada menos que vergonha na cara.