O final de semana tinha tudo para ser celebrado pelos que apreciam a arte quase perdida do tênis jogado com técnica e refinamento. Afinal de contas, o complexo de Flushing Meadows, no subúrbio nova-iorquino do Queens, abrigou - quem sabe pela última vez - o maravilhoso confronto entre dois dos maiores jogadores da história do esporte: Pete Sampras e André Agassi. Só que os amantes do esporte têm, para mim, mais motivos de tristeza do que de celebração.
Em setembro do ano passado eu fui à Nova York para ver de perto o nosso Guga, que atravessava a melhor fase da carreira. Por lá, só encontrei decepções. Já nas quartas-de-final, Guga foi massacrado por Kafelnikov - e dali em diante jamais voltou a estar entre os primeiros do ranking. Na final, Pete Sampras foi demolido pelo jogo um tanto feio, porém vertiginoso, de Lleyton Hewitt. Mas a tragédia maior ainda estava por vir. Refiro-me ao atentado de 11 de setembro, que ocorreu a poucos quilômetros do estádio Arthur Ashe, palco do US Open. Na noite daquela final eu jantei no River Cafe, do outro lado do rio Hudson, de onde avistei pela última vez as imponentes torres gêmeas. Horas depois, quando elas foram estupidamente atacadas, eu voava de volta para o Brasil. Quando me lembro que estava num 767 da United, partindo do aeroporto JFK, no mesmo instante em que um avião exatamente igual àquele se espatifava contra uma das torres, chego a ter calafrios.
Mas deixemos de lado a crueldade humana e voltemos ao tênis. O prenúncio do final de uma era do esporte foi percebido, por mim, exatamente naquela partida entre Hewitt e Sampras. Após ser massacrado pelo jovem australiano, que impiedosamente o fez correr de um lado para o outro da quadra, Sampras declarou para a platéia, através do microfone do estádio: ''Meu Deus, que pernas tem esse garoto! Se eu tivesse as pernas dele, eu até poderia ter oferecido resistência. Mas o tênis hoje é um esporte de muita força e velocidade''. Naquele dia eu descobri que partidas de tênis não mais se ganhavam com paralelas bem colocadas ou lobbys surpreendentes. Saques violentos, pernas velozes e muitos músculos importam mais.
Quem não acredita que o tênis está agonizando basta ver o que aconteceu na final feminina de sábado. No tênis das damas, não há mais espaço para uma Chris Evert ou uma Maria Ester Bueno. O que pode fazer a bela e delicada Martina Hingis contra a potência de uma Serena Williams? Como a sílfide Anna Kournikova pode bater uma gigante de quase 1,90m como Lindsay Davenport? Jennifer Capriatti até que conseguir voltar a jogar em alto nível - mas para isso precisou adquirir, à custa de muita musculação, braços de halterofilista. O tênis feminino é hoje assunto para as parrudas Davenport, Mauresmo e Serena Williams. E nem elas vêm sendo páreo para uma tenista que levou a predominância do físico sobre o talento a uma nova e inimaginável fronteira: Serena Williams.
A irmã caçula de Venus é tão forte, mas tão forte, que nem mesmo a forçuda irmã consegue oferecer-lhe resistência. O braço de Serena é quase tão grosso quanto a perna do Guga. Até onde irá isso? Que esporte louco é esse, no qual a final masculina de um torneio exibe graça e estilo em doses superiores à da final feminina? O mais triste é que a ditadura do físico, que tomou conta do tênis feminino, já é também uma realidade no masculino. Apelidos como ''A Besta'', ''O Canhão'', ''O Míssil'' - que antes cairiam bem apenas em atletas de telecatch -, são cada vez mais comuns entre os top ten do esporte.
A solução para o problema é absurdamente simples: basta que se promovam alterações na pressão e no peso da bola, para que o jogo desacelere e a técnica volte a prevalecer sobre a força. Infelizmente, a televisão - sempre ela! - parece preferir partidas mais rápidas e com menos trocas de bolas, e isso vem pesando na decisão.
Sampras e Agassi jogaram ontem - e eu não torci por nenhum dos dois. Desejei apenas que o jogo não acabasse jamais. Porque aquilo era tudo o que me restava. Porque o último grande duelo de Pistol Pete e Andre Agassi será tudo o que veremos do tênis estilista nos próximos anos - e talvez décadas. A brutalidade da final feminina de sábado avisou que, daqui para a frente, será a ditadura dos velozes e furiosos.