Madureira - bairro onde nasci - é um lugar tão bom que até escola de samba do primeiro grupo a gente tem duas: Portela e Império. Como canta o vozeirão de Monarco, “eu sou Portela, desde os tempos de criança”. Mas o pessoal do Império Serrano, para perturbar a nossa paciência, gosta de dizer que a Portela não é de Madureira, e sim de Oswaldo Cruz. Nada disso. A azul e branca foi fundada em Madureira e sua quadra atual fica justamente na fronteira dos dois bairros. A ligar as duas escolas, temos a Estrada do Portela, que começa, ironicamente, bem em frente à sede da concorrente verde e branca — esta sim, fundada no morro da Serrinha e com quadra na estação do Magno. A verdade é que, no fundo, todos são vizinhos e amigos.
Mas por que diabos terei eu me metido em digressões carnavalescas em pleno mês de julho? Agora lembro: foi por causa do nome do estádio que abrigou Paysandu x Palmeiras, pela semifinal da Copa dos Campeões. Mangueirão — assim é conhecido o bonito estádio da capital paraense. Com um nome desses, imaginei, as arquibancadas devem estar pintadas de verde e rosa, em homenagem à gloriosa Estação Primeira, de Cartola e Nélson Sargento. Entretanto, para alegria deste coração portelense, o estádio ontem estava inteiramente coberto de azul e branco. De verde e rosa, por ali, só mesmo a estranhíssima terceira camisa do Palmeiras, com tons desbotados de abacate de gaveta.
Como o futebol do Verdão esteve à altura do uniforme — ou seja, desbotado - foi o Paysandu que acabou ganhando o jogo. O Papão vai enfrentar na final outro azul e branco: o Cruzeiro. Mas não é do azul cruzeirense que eu queria falar. Nem do azul do Paysandu — e nem mesmo do azul da Portela. Na semana que se inicia, nenhum tom de azul será mais importante para o futebol brasileiro do que aquele que cobre a camisa da Associação Desportiva São Caetano, o nosso popular Azulão - que no meio da semana estará decidindo o título da Libertadores com o Olímpia.
As imagens do Mangueirão coberto de azul me estimularam a fazer a seguinte proposição aos torcedores de São Paulo e — por que não? — do Rio de Janeiro: vamos lotar o Pacaembu na noite de quarta-feira. O São Caetano, mais do que qualquer outro clube no Brasil, merece contar com a nossa presença. Razões não faltam. Primeiramente, o Azulão joga à brasileira, sempre no ataque e dando espetáculo, mesmo quando atua na casa do adversário. O toque de bola do time, rápido e preciso, é capaz de agradar aos mais exigentes torcedores. O excelente futebol da equipe já seria suficiente para fazer da final contra os paraguaios um belíssimo programa. Mas haverá muito mais em jogo.
A conquista do importante título pelo Azulão representará muito para todos nós. Não apenas para manter em alta o prestígio do futebol pentacampeão do mundo, mas especialmente porque o São Caetano sinaliza uma saída para a grave crise administrativa do futebol brasileiro. O clube realiza um trabalho com visão de longo prazo, mantém o treinador anos a fio, não paga salários acima de um teto ajustado à realidade do país, respeita contratos e patrocinadores, não tem dirigentes encalacrados em CPIs e, principalmente, não gasta mais do que arrecada — princípio básico de qualquer administrador com um pingo de vergonha na cara.
É por tudo isso que convoco aqueles que amam o futebol brasileiro a buscar nas gavetas dos armários uma camiseta azul, e a comparecer ao Pacaembu para empurrar o clube mais organizado do Brasil rumo ao seu primeiro título internacional. A vitória do São Caetano será a prova definitiva de que é possível administrar um clube com ética, responsabilidade e competência, sem abrir mão de títulos.
Já separei minha velha camisa da Portela. Nos vemos na quarta-feira.