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Esqueçam as lindas, mídia nas feias

 


Esqueçam as lindas, mídia nas feias


Tenho uma amiga que é rica, famosa, bem-sucedida, conhecidíssima pela mídia, só que é feia e muito, mas muito namoradeira. Nos últimos dois anos, tive o cuidado de fazer as contas e ela trocou de parceiro 18 vezes, um recorde de botar qualquer Adriane Galisteu, Débora Secco e Luana Piovani no bolso. A grande diferença dela para as outras feias é que ela tem uma autoconfiança das maiores que já vi. Ela se acha um portento de sedução, exatamente como as bonitas e famosas - talvez o seu espelho seja de uma qualidade diferente, sei lá.

Vou descrevê-la para vocês poderem entender: claro que ela é loura, evidentemente tingida, corpinho meio flácido e cheinho, embora não saia da academia. Ela tem um problema genético de flacidez, eu acredito. Dentes, poderiam estar em melhores condições, está aí um ponto que eu não entendo, pois ela se cuida tanto, já fez tantas plásticas, usa todos os cremes, mas nunca deu uma recapadinha nos coitados, nem pensou num aparelho corretivo. Pensei em dar a ela o endereço da Denise, minha dentista, mas o seu último namorado me confessou que ele tinha loucura por seus beijos, então deixei pra lá.

É claro que uma mulher com este volume de parceiros na carreira já experimentou todos os tipos de machos, dos mais delicados e burros aos mais rústicos e inteligentes. Ela é uma enciclopédia no conhecimento da carne masculina. Suas opções são: homem solteiro, mas sem pensar muito esses homens podem ser também casados, viúvos, divorciados. O único quesito realmente exigido é que seja homem, viril e potente, também não precisa ser bonito, seu conceito de beleza não é nada rigoroso.

Nunca nenhuma de suas aventuras foi coberta pela mídia, embora ela já tenha namorado artistas famosos, personalidades, etc... e esteja sempre exposta em todos os lugares. Por que a mídia só se interessa por cobrir a vida sexual das lindas? Será que as feias não possuem vida amorosa ativa?

Essa minha amiga, por exemplo, todos a conhecem. Ela não esconde os seus casos, assume tudo. Por que só a Luana Piovani não tem sossego com as suas indecisões, ou, melhor dizendo, decisões?

A minha amiga tem direito de trocar à vontade, de seguir experimentando e ninguém pergunta por que ela não sossega. Por que enchem tanto o saco da coitada da Débora Secco? Como ela mesma diz, ainda é muito novinha, tem esse direito.

E a Adriane Galisteu, que não quer ou talvez não saiba viver sozinha, e que engata um namoro no outro com a rapidez de um Ayrton Senna? No dia seguinte já é capa da revista da semana, não dão sossego para que ela curta tranqüilamente seu novo amor.

Já a minha amiga foi fazer uma plástica outro dia e quem a levou para o hospital foi o namorado da vez. Quando voltou para o quarto e começou a falar, me confessou ter conhecido no caminho da sala cirúrgica o homem da sua vida. Era charmoso, inteligente etc. Imediatamente pensei: isto é alucinação da anestesia, ninguém conhece alguém no caminho de uma cirurgia.

Engano total. Ela saiu do hospital acompanhada não do namorado, mas do anestesista. Pura verdade. Vocês hão de concordar que a velocidade da troca é muito maior do que a da Galisteu. Mas ninguém publicou esta foto, só incomodam a Adriane. Por que será? Por que a perseguição é tão intensa? Como estes repórteres farejam a vida dos outros?

Fico bobo com o investimento que as redações fazem hoje em dia. Sempre tem um repórter de prontidão nos mares de Angra, por exemplo, para seguir com seu faro os famosos presentes no oceano. E esta operação deve ser bem cara. Não me conformo com isso. As pessoas têm o direito de buscar o seu verdadeiro amor em paz, o direito de matar seus desejos em paz, mesmo que estes desejos sejam produto de um furor uterino, psicológico, ou sei lá qual.

O desgaste emocional, as frustrações do término de um relacionamento, a euforia de uma nova conquista devem ser curtidos com respeito, sem que terceiros invadam. Isto pode trazer sérias conseqüências de avaliação, já que as pessoas, sob pressão, podem seguir caminhos que não são os mais apropriados.

Exemplo: a Carolina Dieckmann não teve sossego ao se separar. Encontrou um novo amor e não deixaram que ela tomasse suas decisões em paz, recolhida na sua fragilidade e nos seus pensamentos. Já a minha amiga feia, que estava planejando ter um filho, pois tinha encontrado uma certa estabilidade com o anestesista, um dia foi parada numa estrada por excesso de velocidade. O guarda rodoviário era estilo Rodrigo Santoro. Sua libido não agüentou e ela ficou mantendo um relacionamento paralelo por algum tempo com o policial. Depois de ter matado a fome, ela teve sossego para avaliar e tomar com tranqüilidade a sua decisão. E decidiu com todo o cuidado ficar com o guarda.

Ninguém cobrou nada dela, ninguém tomou as suas dores ou as dores do anestesista. Ela pode sempre ter sossego para seguir seu caminho, certo ou errado. Já as bonitonas da vez não têm sossego. Cheguei a me perguntar, ou até a pesquisar, lendo Freud e Jung, se isso não seria uma transmissão do desejo alheio para o próprio inconsciente faminto de aventuras espetaculares, interior incorfomado com a chamada mediocridade das vidas.

Não obtive resposta objetiva com a a pesquisa. Enquanto continuo minha busca, começo a liderar uma campanha de cunho nacional, começando aqui no JB: DEIXEM AS LINDAS EM PAZ. MÍDIA NAS FEIAS, JÁ. Ah! esqueci de citar a Luma. Coitadinha dela, nem prestigiar heróis com sua famosa imagem e com seu famoso dinheiro ela pode. Lá vem a mídia...


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[12/ABR/2004]


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