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Ouvir Bibi é um grande privilégio

 


Ouvir Bibi é um grande privilégio


Algumas vezes a vida nos proporciona momentos de uma emoção e de uma importância tão fortes que deveríamos desenvolver um método de poder registrar aquilo internamente, com uma fidelidade absoluta.

A emoção seria medida com um determinado sensor, tão apurado, que apenas com uma medida superior a tantas lágrimas ou a apertos cardíacos se teria a chance de reviver aqueles instantes.

Claro que existem meios técnicos para isso - cinema, DVD, vídeo etc. Não estou falando de registrar apenas a imagem ou o som, é muito mais que isso, eu falo das emoções, dos sentimentos que acontecem infelizmente poucas vezes na nossa existência (por sinal a gravadora Biscoito Fino registrou o espetáculo).

O que aconteceu, há alguns dias, no Teatro Maison de France, com Bibi Ferreira cantando canções da Edith Piaf, foi com toda certeza um desses raros momentos.

Impressionantes a segurança e a capacidade de encantar e emocionar as pessoas que esta senhora possui.

Logo na sua entrada a platéia levantou-se e a aplaudiu intensamente em pé, demonstrando admiração e respeito por aquela artista de qualidades e talentos inesgotáveis.

Aí Bibi foi desfiando as canções mais importantes do repertório da intérprete francesa, com um desempenho tão cuidadoso, com uma destreza tamanha e com uma emoção tão forte e sincera que as pessoas iam ficando cada vez mais tomadas pela atmosfera que a atriz levou ao palco naquela noite - e nem as intervenções do narrador atrapalharam a perfeição do show.

Cada canção apresentada trazia consigo uma reação emocionada e calorosa da platéia, que naquela noite estava repleta de personalidades e colegas importantes de Bibi Ferreira: Fernanda Montenegro, Natália Thimberg, Sérgio Brito, Nicete Bruno com Paulo Goulart, Othon Bastos, Ana Botafogo, filha, netos e bisnetos da diva e muitos franceses encantados com a pronúncia e com a interpretação da cantora. O espetáculo acabou com a platéia exigindo bis, aplaudindo por  vários minutos,  até que a diva voltou à cena - e durante todo o seu retorno aquele público permaneceu em pé e aplaudindo, em sinal total de reverência e de admiração.

Numa noite  de maio de 1983, no Teatro Ginástico, com direção de Flávio Rangel, pela primeira vez Bibi apresentou Piaf. Foi surpreendente e mágico. É incrível que, 20 anos depois, a mesma atriz (com todas as dificuldades inerentes ao acréscimo das intempéries que a vida proporciona) volte aos palcos, apresentando o mesmo repertório, cantando com uma afinação impecável, sem demonstrar o menor desgaste físico e muito menos vocal, segurando as notas e fazendo malabarismos discretos e eficazes com a voz e com o corpo.

Em 20 anos, o fenômeno Bibi Ferreira nos demonstra um controle e uma qualidade artística dignos das grandes divas do cinema mundial.

Talvez a atividade ininterrupta seja responsável por estes atributos todos. Bibi se mantém trabalhando ano após ano, não só atuando, mas dirigindo peças e shows de colegas, que pedem por seus sábios conselhos e conhecimentos incomparáveis sobre a profissão de artista, nos seus mais diversos prismas.

Lembro-me, como se fosse hoje, da primeira vez que vi Bibi Ferreira cantar. Foi num teatro em São Paulo, onde aquela mulher se apresentava num musical de Chico Buarque e Paulo Pontes chamado Gota d'água. Aquela apresentação foi suficiente para eu nunca mais ter esquecido do fascínio que aquela atriz exerceu definitivamente naquele então adolescente. Esta admiração me persegue carinhosa, intensamente, até hoje. E com certeza se eternizará não só em mim, mas em todos aqueles que respeitam e admiram a qualidade dos artistas brasileiros.

Bibi Ferreira é um fenômeno de talento e conhecimento, que ficará para sempre num lugar muito especial da história das artes cênicas do Brasil.


[09/FEV/2004]


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