Eu tenho predileção por ouvir cantoras com o timbre grave. Talvez pelo fato de o Brasil ser um país em que se destaquem cantoras com voz aguda. Lembro-me da Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Sylvia Telles, Gal Costa, Zizi Possi e por aí vai.
A primeira vez que ouvi a Nora Ney, pro meu coração, foi definitivo. Aquela mulher de voz mais grave interpretava de uma maneira diferente da costumeira. Aí me apaixonei pelas vozes da Elizeth Cardoso, da Maysa, da Bethânia, da Simone, da Ângela Ro Ro, até chegar na Zélia Cristina.
Eu estava dirigindo um musical no Rio chamado Cristal quando me apresentaram a uma menina linda, que veio com um disco embaixo do braço para me dar de presente. Ela era tímida, mas com uma forma de olhar muito expressiva, e quando ela falava sobre música seus olhos brilhavam de uma maneira diferente, apaixonada.
Cheguei em casa e fui ouvir o LP. Fiquei encantado com o timbre e a forma daquela mulher cantar, principalmente porque tinha uma das vozes graves mais bonitas que eu já tinha ouvido. Eu me lembro bem até hoje da interpretação que ela deu para Super-Homem, canção do Gilberto Gil.
Dali pra frente, fiquei atento a tudo que ela fazia, fui seguindo os seus passos de longe. Soube que tinha ido morar nos Emirados Árabes, perdi contato.
Um dia eu percebi que aquela Zélia que eu conheci, da voz grossa maravilhosa, tinha mudado de nome. Tinha tirado o Cristina e colocado o Duncan. A princípio eu estranhei, achei que ela iria cantar em inglês, ou música brasileira com sotaque gringo, talvez por exigência do chamado ''mercado''. Eu me preocupei e pensei: lá vem ela de minissaia, de jeito sensual ordinário e coisas assim. Vão matar a Zélia sob o pretexto de colocá-la num lugar ao sol, imaginei, já triste.
De repente comecei a ouvir muito nas rádios e na TV uma música cantada pela tal Zélia Duncan. Era o seu estouro, Catedral, de T. Tikaran, versão dela e do Christian Oyens, seu parceiro mais constante.
Percebi naquele momento que ela, além de uma excelente cantora, era também uma compositora de mão-cheia. Com o disco nas mãos, vi que a danada era prendadíssima, pois tocava um violão dos bons. Vi que a minha paixão por aquela cantora não era só minha, era de muita gente e confesso que fiquei com um pouquinho de ciúmes em dividi-la. Deixando a brincadeira de lado, tive certeza que a Zélia, agora Duncan, não tinha cedido a nenhuma imposição de nenhum modismo, tinha apenas se aperfeiçoado. Então tive certeza de que aquela voz grave ia longe.
Em 1996, a Zélia lança o disco Intimidade, concretizando-se no mercado e nos ouvidos do público. Com este trabalho ela se supera, cantando uma música do Itamar Assunção e da Alice Ruiz chamada Vou tirar você do dicionário. E aí ela foi se destacando como uma grande intérprete daquele compositor, ainda vivo na época.
Disco novo na praça, desta vez um trabalho quase todo autoral, Acesso. Nele, Zélia vai mostrando cada vez mais a sua qualidade de instrumentista, tanto que até na capa ela se acompanha de um violão.
Depois Zélia vem com dois Sortimentos, um de estúdio e outro ao vivo, deixando claro o tipo de cantora rara que o Brasil possui, com repertório variado misturando suas composições com pérolas do Itamar, do Nando Reis, do Fred Martins e outros.
E agora, o que é que a habitante da Urca vai mostrar?
Outro dia tive a sorte de ouvir uma música que particularmente adoro e que foi um grande sucesso na voz da Simone, Jura secreta. A música faz parte da trilha da nova novela das 7, Da cor do pecado (por sinal, um título bem infeliz), desta vez gravada pela Zélia com um arranjo maravilhoso. Fiquei duplamente feliz. Primeiro, porque a canção está linda e, segundo, porque soube que foi um pedido da diretora Denise Sarraceni, que, além de competente, tem um gosto musical de primeira. Tanto que gosta de ouvir a nossa Zelinha também.
Essa canção vai fazer parte de um novo trabalho chamado Eu me transformo em outras, título que homenageia Itamar Assumpção, já que se trata de uma frase tirada de uma canção dele, gravada neste trabalho que Zélia lança ainda neste semestre. O novo disco tem um repertório diferente do habitual, com algumas canções que são clássicos da MPB, como A deusa da minha rua, Disfarça e chora, Linda flor, Fala baixinho, Sábado em Copacabana. Todo o disco é gravado com um time de músicos de primeiríssima e arranjos de arrepiar defunto.
Pelo que ouvi deste novo trabalho e deste novo repertório, tenho certeza de que Zélia vai ficar definitivamente com o título de uma das melhores vozes femininas do Brasil.
Que bom! Mais uma de voz grossa.