Nos parlamentos como nos estádios, o silêncio também diz algumas coisas. Como réus e indiciados escolheram calar-se em face de algumas perguntas, os telespectadores puderam examinar o lado silencioso da comunicação detectada nas mãos, nos braços, nos olhos, nas sobrancelhas, no tremer de lábios e na posição na cadeira, gestos que ocultaram coisas de arrepiar os cabelos.
Manuelagem, do francês manuelage, designa a linguagem das mãos e é verbete do livro História dos nossos gestos, de Luís da Câmara Cascudo. ''Diz-se que o homem do povo com as mãos amarradas fica mudo'', ensina o mestre.
A deputada Denise Frossard, ex-juíza, de quem a Editora Rio fez um belo perfil na coleção Gente, lembrou em seu depoimento à Universidade Estácio de Sá que ''o momento exige que os homens de bem tenham a audácia dos canalhas''. O autor original do conselho foi Benjamin Disraeli, romancista e político inglês de ascendência judaica. Os canalhas, além das palavras, usam muito as mãos, inclusive para carregar malas recheadas de dinheiro vivo.
Alguns desses gestos foram flagrados por câmeras indiscretas, mas outros certamente não. Os advogados que acompanham os acusados devem dar-lhes beliscões sob a mesa, advertindo-os do que não pode ser dito, pois feito já foi. Namoradas ciumentas, flagrando o olho comprido, o olho gordo e o olho grande sobre eventuais rivais, beliscam os amados.
Afinal, nossa língua portuguesa assegura que é possível comer com os olhos, depois de posto o olho grande sobre o objeto do desejo, seja a olho nu, seja de olhos fechados.
De olho nos interrogados, diligentes parlamentares já pensam em pôr no olho da rua alguns de seus colegas, pois, se imaginavam que eram capazes de tantas safadezas, jamais pensaram que os limites fossem levados a fronteiras tão distantes. Assim, o caso do impeachment de Fernando Collor de Mello poderia migrar para o juizado de pequenas causas.
Mãos, braços e olhos falam. E os dedos, especialmente, como no caso do beliscão, também utilizado com fins amorosos, como narrado em Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, onde a história de amor começa com um beliscão. Temos ainda o beliscão-de-frade, aplicado com os nós dos dedos indicador e médio dobrados. Frei Betto teve a audácia de Leonardo Boff e vem aplicando beliscões em vários artigos, desde que abandonou a assessoria especial do presidente Lula.
O naturalista austríaco Johann Emanuel Pohl, que acompanhou a princesa Leopoldina, aqui ficando quatro anos, conta que as damas brasileiras, vestidas conforme a última moda de Paris, ''beliscavam-se mutuamente no flanco esquerdo, segundo o costume brasileiro, em sinal de saudação''.
Nunca o dedo, do latim digitus, esteve tanto na ordem do dia. Escolhidos a dedo para fazer as falcatruas denunciadas, os indiciados estão levando o mundo a apontar o dedo para o indigitado povo brasileiro.