Fazer inquérito, ou fazer o competente inquérito, como gostam de dizer os delegados de polícia, é tarefa de pesquisa habitual para cientistas e jornalistas. Mas, no português coloquial, suas vinculações mais visíveis são com procedimentos policiais e judiciários, como sabem advogados, promotores, juízes ou outros que arrebatam suas funções, como é o caso dos parlamentares em tempos de CPIs.
Entretanto, a palavra inquérito, antes de chegar às delegacias, aos laboratórios, às pesquisas de campo, à imprensa e aos parlamentos, apareceu num livro sobre a vida burguesa de Portugal no século 19. É Uma família inglesa, romance de Júlio Diniz, pseudônimo do escritor português Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que morreu precocemente aos 32 anos. Dele é muito conhecido As pupilas do senhor reitor, romance publicado um ano antes, em 1867.
Inquérito veio do latim vulgar ''inquaeritare'', radicado originalmente nas formas do latim culto ''quarere'' e ''quaeritare'', as três com o significado de procurar, buscar, informar-se.
Em antigos escritos latinos um dos verbos que lhe deu origem, ''quarere'' (perguntar, procurar), aparece abonado em exemplos como seguem: ''quarere de morte alicuius'' (fazer inquérito sobre a morte de alguém) e ''quarere unum coelum aut innumerabilia'' (fazer inquérito para descobrir se havia um único céu ou céus inumeráveis).
O primeiro situa-se em terreno quase doméstico. A pessoa morria sem que se soubesse de quê. Fazia-se o inquérito para que todos soubessem do que ela tinha morrido, pois às vezes tinha sido envenenada. Foi, pois, a arte de envenenar que trouxe ''inquérito'' para o terreno policial e judiciário.
No segundo exemplo, o contexto é teológico. Bom tempo a Idade Média! Ao contrário de hoje, quando reina absoluta a economia, quem mandava era a teologia. O povo era levado a pensar se havia mais do que um Céu, mais do que um Inferno, se os anjos tinham sexo, se as mulheres tinham alma etc. Inventado para redimir os agiotas na outra vida, desde que nessa doassem parte dos juros auferidos à Igreja, o Purgatório, com seu fogo brando e passageiro, logo foi aceito por todos, pois a alternativa eram as chamas violentas e perpétuas do Inferno.
Arthur Rimbaud, contemporâneo de Júlio Diniz, tem um livro justamente com o título herético de Uma temporada no inferno, na competente tradução do jornalista e escritor gaúcho Janer Cristaldo, onde lá pelas tantas se lê: ''a quem alugar-me? Qual besta é preciso adorar? Que santa imagem ofender? Que corações devo quebrar? Que mentira devo sustentar? - Em que sangue caminhar? Antes de mais nada, cuidar-se da justiça''. É leitura indispensável para corruptos e corruptores, quase um manual de instruções.
Purgadas mais nas delegacias de polícia, na imprensa e nos parlamentos do que no Judiciário, velhas corrupções migram rapidamente para Juizados de Pequenas Causas e somem da imprensa. Em seu lugar vêm as novas, que logo tomam o mesmo destino.
Uma temporada no Purgatório é um bom negócio para todos os envolvidos. Isto é, o competente inquérito pune apenas quem não puder ou não quiser negociar a remissão dos pecados.