As moças proclamavam com inocência: ''Nós somos as cantoras do rádio/ levamos a vida a cantar,/ de noite embalamos teu sono,/ de manhã nós vamos te acordar''.
Naquele tempo, a boca da noite e a aurora chegavam acompanhadas de novas auroras: Aurora Miranda, que cantava em dupla com a irmã famosa, Carmen Miranda, e aquela outra, celebrada por Casimiro de Abreu no século anterior: ''Ai que saudades que eu tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida,/ que os anos não trazem mais''.
O rádio irrompera na década de 20 e padronizava usos e costumes, bem antes da televisão, que depois os globalizaria. Vivíamos os anos 30, que desarrumariam a vida nacional com três revoluções, seguidas de um golpe de Estado e de uma guerra mundial!
É verdade que, mais uma vez - no princípio era o verbo, no meio e no fim também será -, as palavras temperavam os modos de dizer: o movimento liderado por Getúlio Vargas foi denominado Revolução de 30; o dos paulistas, Revolução Constitucionalista de 32; o de 1937 recebeu o nome de golpe. Já o de 1935, dos comunistas, foi rebaixado a Intentona, palavra de origem espanhola, até então quase desconhecida dos brasileiros.
Intentona tem, nos dicionários, o significado de coisa insensata; golpe e revolução, não. Todos esses movimentos foram revoluções, pois apregoavam mudanças profundas. A raiz de revolução e palavras conexas é o latim ''revolutione'', (pronuncia-se ''revolucione''), declinação de ''revolutio'', passagem de um estado a outro, tendo também o significado de voltar, rodar.
Se as cantoras do rádio, durante décadas, disseminaram sensualidades difusas, as cantoras da televisão, meio que alcança a hegemonia na década de 70, escancararam outros significados, abrindo a boca e os braços na telinha, fazendo do corpo um outro modo de dizer o que estavam cantando.
As novas musas, cantando e dançando, passaram a apregoar o desejo na televisão, sem nenhum eufemismo, de que são exemplos esses versos de Rita Lee: ''me aqueça,/ me vira de ponta cabeça,/ me faz de gato e sapato/ me deixa de quatro no ato,/ me enche de amor, de amor''.
Na norma culta da língua portuguesa, se é ''aqueça'', então deveria ser ''vire'', ''faça'', ''deixe'', ''encha''. É que ''você'' é forma de tratamento de terceira pessoa, mas funciona como se fosse de segunda.
Rita Lee alcançou a beleza da rima pretendida: ''aqueça'' com ''cabeça''. A norma gramatical, como em tantas outras vezes, cedeu à poesia.
E novos modos de dizer ganharam a fala das ruas por influência, primeiramente do rádio e depois da televisão, que hoje tem hegemonia nesse processo.