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Escrevendo com os poetas


O que os poetas brasileiros e portugueses escreveram sobre os bichos? O escritor gaúcho Sérgio Faraco organizou preciosa coleção de poemas. Livro dos bichos, em formato de bolso, é da LPM e está à disposição dos leitores até em farmácias. Sua leitura pode ajudar os vestibulandos a escreverem suas redações. Inspirada em poesias como essas, a prosa sairá melhor.

Uma das mais bonitas é A última abelha, de Raimundo Correia. Em noite chuvosa, Nossa Senhora deixa a roca e vai salvar uma abelha que se debate toda molhada na vidraça: ''entre dois dedos toma-o. Vê, contente,/ no inseto a abelha-mestra de um cortiço;/ recolhe-o no seio caridoso e quente;/ e as duas asas trêmulas, vermelhas,/ num beijo terno enxuga-lhe... Sem isso,/ o verão não teria mais abelhas''.

Olavo Bilac trata dos amores suicidas dos machos em Os amores da abelha, ''noivos zonzos, voando ao nupcial mistério'', numa loucura da qual sobrará apenas um, que ''morre na vitória''. O fecho é perfeito: ''e, rodopiando, inerte, o suicida sublime,/ entre as bênçãos da luz e as hosanas do vento,/ rola, mártir feliz do delicioso crime''. O poeta, inventor do livro didático e do serviço militar obrigatório, tinha paixão por amores de final infeliz.

A abelha inspirou também a Humberto de Campos, que lhe dedicou um soneto: ''para que a abelha, nossa irmã, produza/ mel saboroso que, entre ceras, vaza,/ há muita gente precavida que usa/ plantar roseiras em redor da casa''. É exemplo de abertura de redação. O fechamento não é menos didático: ''o próprio inseto amolda-se ao suborno:/ se não queres que a abelha te envenene,/ não lhe plantes mandrágoras em torno...''.

Hermes Fontes ocupou-se das borboletas. Ou das mulheres? ''Borboletas! Nasceis para inebriar rosas!.../ Mulheres - borboletas venenosas -, / envenenai-me o coração!...''. Na página seguinte, filosoficamente, Fernando Pessoa acaba com tudo: ''no movimento da borboleta o movimento é que se move,/ o perfume é que tem perfume no perfume da flor./ A borboleta é apenas borboleta/ e a flor apenas flor''.

A cigarra e a formiga comparecem ao poema de João de Deus para que seja exaltado o trabalho e repudiada a arte. Tendo cantado no estio, ao chegar o inverno a artista procura a trabalhadora e lhe pede o favor de ''me emprestar mantimento,/ matar-me a necessidade'', mas ouve em troca que ''quem leva o estio a cantar,/ leva o inverno a dançar!''. O que a formiga fez foi roubar e destruir as plantações, por que, então, é tão louvada? O famoso viajante francês August de Saint-Hilaire já tinha dito da formiga a sua frase célebre: ''ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil''.

Faraco inclui alguns clássicos, presentes em várias antologias, como Cisnes, de Júlio Salusse, carioca, falecido em 1948, aos 76 anos. Depois de dizer dos amantes que ''nós dois vagamos indolentemente,/ como dois cisnes de alvacentas plumas!'', conclui que é proibido aos viúvos se casarem: ''que o cisne vivo, cheio de saudade,/ nunca mais cante, nem sozinho nade,/ nem nade nunca ao lado de outro cisne''. Como se vê, o casamento monogâmico era defendido a ferro e fogo, mas também a cisne e água.

Em lendárias narrativas cristãs, os peixes subiram à flor d'água para ouvir o sermão de Santo Antônio. E São Francisco convivia com pássaros e lobos. A paz com o lobo foi obtida de um modo que pode ser tema de redação: ''Irmão lobo, prometo que, enquanto viveres, não sofrerás fome; porque sei que é por fome que fizeste tanto mal''.

Santos e poetas têm muito em comum. Redigirá melhor quem ler o que escreveram. Invocados no vestibular, a melhor ajuda que os santos podem dar aos escreventes é outra: a leitura dos poetas, que narram em verso e em prosa.


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[22/NOV/2004]


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