Servidor já vinha designando funções bem diferentes daquelas que teve na origem. Nunca, porém, ampliou tanto os significados como no século passado, com a chegada da informática. Servidor, derivado do latim
servus, servo, escravo, mas com sutis diferenciações entre um e outro, designa o computador que provê dados e serviços a outros computadores, ligados entre si, perfazendo uma rede e ensejando que os recursos sejam compartilhados.
O inglês tem servitor, criado, servente, e servo, redução de servomechanism, neologismo que a língua criou para designar instância a serviço de outra, na mecânica como na eletrônica. E tem também slave, escravo, designando computador periférico ou terminal, dependente de computador central. A palavra aparece nos compostos slave cache, slave store, slave terminal, slave processor e slave tube, designando escravos eletrônicos encarregados de guardar dados, nos dois primeiros casos, e escravos incumbidos de apresentar e processar o que o computador central determina, nos dois seguintes, e monitor escravo que mostra exatamente o que a primeira unidade está exibindo. Ora, escravo e slave procedem do latim slavus ou sclavus e do grego bizantino sklábos, por força de povos eslavos terem sido maciçamente escravizados na Alta Idade Média.
O inglês, o latim do império, invadiu a língua portuguesa. Precisamos disciplinar os neologismos à luz da consolidação que virá do uso. Aristóteles definiu esse processo como entelequia, entendida como plenitude de criação ou de mudança, de sentido diferente ou contrário ao processo que as originou. Afinal, como traduziremos mouse? Rato? E no manual de instruções leremos a recomendação para determinada tarefa: ''aperte o rato sobre a figura''? Provavelmente erraremos menos. Afinal, outro servidor, o criado-mudo, não fala, não reclama nem denuncia que o obriguemos ao silêncio. E o latim, nossa língua-mãe, não tinha criado-mudo. Não de madeira.
No caso do inglês, a mudança será mais fácil, pois o inglês não é pai nem mãe, é vizinho longínquo, aproximado por guerras e tecnologia. Talvez a tecnologia, parafraseando o que disse da paz o teórico Clausewitz, seja a continuação da guerra por outros meios.
As palavras não dizem tudo explicitamente. Têm estratégias de silêncio e mantêm significados subjacentes. Será que a informática anuncia um tempo em que escravizaremos apenas as máquinas? Ou o computador apenas substituirá o feitor? A abolição da escravatura teve espíritos altruístas que a abominaram com candentes poesias e prosas em nossas letras, mas diagnósticos frios atestam um realismo que pode ter sido a causa maior.
Não precisamos ser economistas ou sociólogos para vislumbrar essa verdade. O dicionário Aurélio abona escravo como adjetivo com este exemplo de Alberto Passos Guimarães, extraído de Quatro séculos de latifúndio: ''em 1884, o trabalho livre mostrava-se bastante mais lucrativo do que o trabalho escravo''.
Na origem, escravo, servo e servidor tiveram outros sentidos, modificados ao longo dos séculos. Ainda hoje podemos comprovar as discrepâncias. Vejamos este espelho da imprensa: ''Os servidores públicos não tiveram reajustes salariais durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso. E quando o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou apenas 1%, uma silenciosa revolta apossou-se de todos eles''.
Na mesma página, multinacional apresenta liquidação de servidores: ''Servidores por apenas R$ 1.200''. Naturalmente, embora as duas classes tenham sido tratadas como escravos, não são os servidores aludidos na notícia que estão à venda no anúncio. A ironia, porém, às vezes se faz por si mesma.