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Quando o corpo fala


O semblante, os gestos e o tom de voz estão presentes nos atos de fala para melhorar a expressão, como se as palavras não fossem suficientes. E na fala não são de fato. Sussurros, cochichos, sorrisos, risos, gargalhadas e gritos complementam o que se quer dizer.

Para melhorar o desempenho, valemo-nos do corpo também em expressões denotativas ou conotativas, de que são exemplos dedo de prosa, mão dupla, contramão, palmo, braço direito, braça, pegar no pé, pisar no calo.

O repórter diz que certo político está nadando de braçadas, mas que tal desempenho não seria possível se não contasse com qualificado assessor, que é seu braço direito. De outro mirante, a câmera mostra que o político é canhoto. Mas não há contradição no enunciado. Braço direito é metáfora.

Corpo veio do latim corpus. A palavra chegou ao português no alvorecer do segundo milênio, já designando a estrutura física do organismo vivo e coberta de um significado específico que a opunha à alma.

Perde-se nas brumas do tempo a origem de o corpo servir de medida. Ao instruir Noé para fazer a Arca, Deus lança mão do recurso: ''Desta maneira a farás: o comprimento da arca será de 300 côvados, a sua largura de 50 e a sua altura de 30.'' Côvado veio do latim cubitus, cotovelo, e é medida de comprimento. Equivale a 66 centímetros.

O escritor Sérgio Faraco fez cuidadosa seleção de poemas sobre o corpo humano, destacando temas recorrentes num pequeno volume intitulado Livro do corpo, que se fecha com estes versos de Fernando Pessoa, exalados depois de aludir aos cabelos, aos seios, aos braços e às mãos da mulher amada: ''Apetece como um barco./ Tem qualquer coisa de gomo./ Meu Deus, quando é que eu embarco?/ Ó fome, quando é que eu como?''

Mão também veio do latim manus. Além de designar a parte de nosso corpo ligada ao antebraço pelo punho, essencial à transformação do macaco em homem, pelo trabalho, segundo afirmação de Friedrich Engels num ensaio clássico, há dezenas de outros significados para mão, incluindo, por metáfora, a pata dianteira dos quadrúpedes.

Mão é também um conjunto de espigas de milho, cujo número varia de 25, em Alagoas, a 64, no Rio Grande do Sul. Em São Paulo, a mão de milho tem 60 espigas e em Pernambuco, 50.

Designa também camada de tinta e direção no trânsito, além de indicar 25 folhas de papel e servir de medida sob a designação de palmo.

Na Índia, a mão corresponde a dois palmos, pois a medida começa no cotovelo e vai até a ponta do dedo médio. Também os cabelos ajudam homens e mulheres na complexa tarefa da expressão, de que é exemplo a trança.

Unha, do diminutivo latino ungula, de unguis, designa tanto a unha humana quanto o casco e a garra dos animais. Ademais, também designa a parte do martelo que é utilizada para arrancar pregos, sendo neste sentido sinônimo de orelha.

A unha presta-se também a algumas metáforas: ''unha e carne'', para demonstrar união muito íntima entre duas pessoas em seus propósitos; ''com unhas e dentes'', indicando ação firme, e ''roer as unhas'', designando situação complicada. O ato de roer pode estar vinculado à antiga necessidade de afiar as unhas.

Falam também os olhos, como na expressão olho-grande, originalmente designando no português o menino que espiava as moças pelo buraco da fechadura enquanto elas trocavam de roupa. O olho-grande primeiramente indicava desejo luxurioso e mais tarde estendeu-se a outros domínios.

Assim, exagerar na contemplação dos rebanhos do vizinho e outros itens de seu patrimônio passou a sugerir deformação psicológica conhecida também como coisa de quem tinha o olho-grande. Por metáfora, o olho-grande é conhecido também como olho-gordo.


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[06/SET/2004]


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