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Português e culinária


Há indícios sutis de uma fala inconsciente na denominação do filé à Marta Rocha. As famosas duas polegadas a mais da carnudinha donzela foram parar nos cardápios.

O detalhe é repleto de significados embutidos. Afinal, como reconheceu Caetano Veloso em versos bonitos, ''a gente não sabe nunca ao certo onde colocar o desejo''. Evidência disso é que o verbo comer, à semelhança de conhecer, que significa também manter relações sexuais, disfarça-se em muitas metáforas, intrometendo-se inclusive nas alusões à sexualidade. A primeira está em Gênesis 4,1: ''Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela deu à luz Caim''. Evidentemente, hoje, quando um homem é apresentado a uma mulher, e vice-versa, apesar de ser protocolar a expressão ''muito prazer em conhecer'', a mulher não sai dali grávida.

O paraíso estava repleto de metáforas, mas aquele não foi um bom começo. Logo o primogênito, enciumado do irmão Abel, que desposara a irmã gêmea, matou 20% da humanidade com uma pedrada só, tornando-se o primeiro genocida. A pedrada foi outra metáfora e anunciou as futuras bombas atômicas.

Na tradução vulgar da Bíblia, empreendida por São Jerônimo, denominada apropriadamente Vulgata, o pastor português João Ferreira de Almeida, o primeiro a fazer sua tradução para o português, no século 17, manteve a metáfora do verbo conhecer. Três séculos antes da psicanálise e de sua complexa rede de símbolos, os primeiros habitantes do Brasil comeram um bispo. Foi em 1556, nos mares de Alagoas, quase à foz do Rio Coruripe.

O nome do prelado era quase um prato. Pero Fernandes Sardinha estava a caminho de Lisboa, onde delataria ao rei Dom João III os padres jesuítas, entre os quais Manuel da Nóbrega, acusados de excessiva complacência com os silvícolas.

Antes que jantasse os sacerdotes, os índios o almoçaram. Os reverendos eram acusados de mais aprender tupi-guarani do que ensinar português! O primeiro bispo do Brasil queria transformar índios em portugueses!

Apesar de terem manjado o epíscopo colonialista em sentido denotativo, o ato ensejou várias metáforas. Como se sabe, o português consolidou manjado como sinônimo de'' amplamente conhecido'', trazendo implícito que às vezes o ouvinte corre o risco de ser ludibriado por palavra ou ato muito manjados do falante.

Convém registrar que os índios não usaram talheres e se serviram de utensílios rudimentares para fazer de Sardinha um prato. Os verbos portugueses que reinavam soberanos na cozinha eram assar, cozer e fritar, acompanhados de estufar e afogar. Mas os índios desconheciam a língua portuguesa. E a antropofagia, se lhes assegurava a assimilação das qualidades do morto, não lhes dava o idioma.

No século 16, a cozinha portuguesa já contava com cerca de 40 utensílios, entre os quais bacia, canudo, escumadeira, fogareiro, panela, púcaro (caneco de lata, com asa), tacho, tigela, toalha, vasilha. Os três talheres mais importantes levaram três séculos para chegar à língua portuguesa. O garfo chegou no século 13, a colher no 14 e a faca no 15.

A língua portuguesa ampliou consideravelmente no Brasil os utensílios culinários. O melhor exemplo é o da cozinha baiana de hoje. Um rol, ainda que sumário, precisa incluir assadeira, batedeira, cumbuca, cuscuzeiro, espeto, frigideira, grelha, liquidificador (escrito também com trema), travessa, urupema e sururuca.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que é pernambucano, prefere churrasco, um prato gaúcho que tem muito a ver com Tarso Genro, o ministro da Educação. Frei Betto, mineiro, o mais íntimo de seus auxiliares, é um bom cozinheiro. Antigamente, antes de demitidos, os ministros eram fritados. Talvez agora sejam assados. Enfim, as metáforas triunfam, como sempre.


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[05/JUL/2004]


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