O Brasil está em reformas há alguns anos, mas não mexemos na ortografia. Ela é imexível, como diria o ministro que levou a cachorra ao veterinário em carro oficial, alegando que o animal era um ser humano como qualquer outro.
Assim, persistem sintomas e problemas. Nem os gramáticos se entendem. Afinal, é berinjela ou beringela? Os dicionários Aurélio, Luft, Caldas Aulete e Globo, entre outros, grafam berinjela, mas Houaiss e José Pedro Machado prescrevem beringela, certamente apoiados em outros critérios.
Os cardápios, exemplos de um português desjeitoso, usam, ora uma, ora outra forma, mas a referência é naturalmente sempre a mesma: o vegetal que veio da Índia.
E é gengibirra ou jinjibirra? O Houaiss prefere a primeira, registrando jinjibirra como regionalismo. O Aurélio prescreve justamente o contrário.
E como traremos para a língua portuguesa o chinês ginseng? Na China, a planta medicinal, de gosto adocicado, semelhante ao alcaçuz, é assim chamada porque sua raiz lembra a forma do corpo humano. Muito vendido em farmácias e drogarias brasileiras, o ginseng aparece nos dicionários como jinsém, jinsão, ginsem, ginsão. E também como panax, seu nome latino. Suas propriedades tônicas e emolientes - emoliente é palavra de origem latina para designar qualidade daquilo que abranda, suaviza, desfaz a dureza - estão impedindo a unificação ortográfica?
As normas da ortografia da língua portuguesa são controversas e lembram, com tantas exceções para cada regra, a citação que de Jorge Luís Borges faz o filósofo francês Michel Foucault em As palavras e as coisas.
O genial argentino refere certa enciclopédia chinesa, inventada por ele, como tantas outras obras e autores presentes em suas narrativas, que classifica assim os animais: ''a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo; m) que acabam de quebrar a bilha; n) que de longe parecem moscas''.
O professor e lingüista Claúdio Moreno defende a gramática vigente, afirmando em Guia Prático do Português Correto: ''ao contrário do que muita gente pensa, nossa ortografia até que não é das piores; mais simples do que a nossa, das línguas irmãs e vizinhas, só mesmo a do espanhol. A do francês é aquele mistério cheio de letras miúdas. A ortografia do inglês é um horror até para os franceses. O nosso modo de escrever é mais simples porque é mais jovem, apropriado para um país como o nosso, que vive uma eterna juventude''.
Em 1990, o governo começou com a jovem e solteira ministra da Fazenda dançando de rosto colado com o ministro da Justiça, então um cinqüentão vivido e sociável, que tinha sido o relator da Constituinte. Ele não fazia o noivo correto, nem ela fazia que quase desmaiava. A casa caiu e eles não viveram sob o mesmo teto.
O governo ao qual serviam quis mexer na ortografia, acolhendo a proposta de um novo Acordo Ortográfico, mas esta e outras mudanças foram prorrogadas. O presidente sofreu impeachment, palavra que o ministro Aldo Rebelo provavelmente gostaria de substituir por impedimento ou banheira.
Assim, continua em vigor o sistema fixado por Getúlio Vargas, em 1943, com pequenas alterações baixadas em 1971, por Médici. Os alunos aprendem que a girafa, um animal herbívoro, é assim denominado porque passa o dia inteiro comendo ervas. Nas palavras extra, exato e inexorável, o x tem um som diferente em cada uma delas. E exceção destina-se a pegadinhas no vestibular e nos concursos.
E não mexemos na ortografia, cujo significado é escrita correta.