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Bingo e jogatina


Bingo e caça-níqueis são palavras que chegaram ao português no século passado. Jogatina, porém, do italiano giocatina, entrou no Brasil nos últimos decênios do século 19. A palavra jogatina deriva de jogo, mas aos poucos deixou de ser considerada entretenimento, diversão, brincadeira, e passou a ter sentido pejorativo. Afinal, os jogos de azar explicitam um fundamento da economia de mercado, em que o trabalho e o capital dependem cada vez mais de forças sobre as quais o homem pós-globalizado tem cada vez menos poder. Também a economia virou jogo de azar, principalmente no Brasil. E os jogos de azar tornaram-se um bom negócio para seus proprietários. A palavra azar veio do árabe vulgar az-zahr, pelo francês assard, sorte, mas também falta dela. No árabe culto é Hazart, nome de um castelo, na Palestina, onde teria sido inventado o jogo de dados.

Quem apostou que o governo perderia para o bingo, ganhou. Por 32 a 31 votos, o Legislativo venceu o Executivo, e este tipo de jogo de azar foi liberado semana passada. Os senadores disseram não ao governo. Alguns bingos vinham funcionando por garantia do Judiciário, que concedera liminares contra a medida provisória enviada ao Congresso em 20 de fevereiro deste ano.

Bingo é palavra que veio do inglês bingo, farra, jogo, provavelmente formado a partir de binge, disposição à indulgência, dependência, e bout, luta, assomo, empenho. Designa jogo em que são utilizadas cartelas, pedras ou sinais eletrônicos com números e letras para combinações.

O bingo foi proibido no Brasil durante vários anos, até que o Congresso aprovou sua regulamentação, por meio da Lei 8 762/93, proposta pelo ex-jogador Zico, quando secretário de Esportes no governo de Fernando Collor de Mello. O audaz presidente, deposto pelo mesmo Senado que agora liberou o bingo, talvez quisesse fazer uma Las Vegas por essas bandas. No jogo do bicho deu zebra o dia que ele venceu as eleições. São insondáveis os desígnios ocultos do jogo, incluindo o jogo do bicho. No dia que Rui Barbosa, a Águia de Haia, morreu, deu águia.

Antes do cipoal de leis, decretos, medidas provisórias e liminares que vetaram ou autorizaram os bingos, os cassinos estiveram confinados a estâncias turísticas, facilitando o controle e a arrecadação. Várias entidades, até mesmo religiosas, e clubes esportivos, em especial os de futebol, têm utilizado o bingo para arrecadar fundos, sorteando carros e eletrodomésticos. Tais iniciativas estendem sobre o bingo o manto redentor da assistência social, mas em geral os significados apontam para um sentido pejorativo.

Caça-níquel e porta-níquel são palavras formadas do latim vulgar captiare, captar, pegar, e porta, de portare, levar, acompanhados do sueco Nickel, deus das minas que deu nome ao conhecido metal, depois utilizado para designar moedas.

O porta-níquel parecia aposentado entre nós, já que a inflação tinha transformado os níqueis no contrário do que apregoa a lei de Lavoisier: nada se aproveitava, tudo se perdia. Depois do Plano Real, porém, as pequenas carteiras destinadas às moedas reapareceram, e suas efígies tiveram mais sorte do que grandes figuras da literatura brasileira, como Machado de Assis, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, estampadas em notas que hoje, reunidas, não pagariam um cafezinho.

A informática modernizou o bingo, o caça-níquel e a jogatina, que se tornaram eletrônicos. Os apostadores acompanham os resultados pela televisão.

O jogo prejudica imensamente os mais pobres, pois qualquer quantia retirada de seus minguados orçamentos é relevante. De todo modo, o maior azar não é de quem joga, mesmo perdendo. É de quem ganha salário-mínimo. Este sempre perde.


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[10/MAI/2004]


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