''Nem se pode dizer que são feitas para inglês ver'', escreveu Machado de Assis sobre as posturas municipais, no longínquo 1893. ''Para inglês ver'' é uma dessas expressões que se incrustam no repertório nacional e passam a sintetizar um conjunto complexo de significados.
Quem a proferiu pela primeira vez foi dom João VI, ao chegar à Bahia, no entardecer de 22 de janeiro de 1808. Ele fugia dos franceses, que tinham invadido Portugal no ano anterior. Registrar a partida, no ano de 1807, seria indicar uma fuga vergonhosa, segundo alguns historiadores. Para outros, uma retirada estratégica, bem típica da criatividade do gênio português. Registrar a chegada consolida um significado positivo. Com efeito, com a vinda da família real para o Brasil, a matriz e a colônia foram preservadas da sanha de Napoleão.
A cidade de Salvador, então capital, estava iluminada e o rei comentou que aquela recepção festiva demonstrava aos ingleses, aliados e protetores dos portugueses, que os brasileiros recebiam-no calorosamente.
Mais tarde, a frase se transformaria em símbolo de burla nacional ou internacional, sempre de grandes proporções, em que são utilizados vistosos aparatos para enganar. Alguns historiadores dizem que a frase pode ter nascido da fingida vigilância com que os navios brasileiros procuravam navios negreiros. Faziam isso apenas para agradar aos ingleses, que haviam proibido o tráfico de escravos.
Outras nacionalidades e etnias estão presentes em expressões de nossa língua, no léxico e na sintaxe. Judeu é um dos exemplos. Os dicionários informam que, além de designar etnia, habitante da Judéia e praticante da lei de Moisés, indica também o sujeito avarento ou usurário. Usurário é sinônimo de agiota e designa o capitalista que cobra juros excessivos. E o verbo judiar aparece como sinônimo de maltratar no romance O Cabeleira, de Franklin Távora: ''agora ele não judiava só com os animais. Ele saqueava plantações e matava gente''. Também o escritor catarinense Guido Wilmar Sassi escreve em Piá: ''frio, muito e muito frio, e judiando da gente pobre''.
O índio, sob cuja designação estão abrigadas numerosas etnias e culturas, também é vitimado pela língua portuguesa, a começar pela expressão ''programa de índio'', que designa atividade ou entretenimento chato, sem graça, aborrecido, lembrando a indolência que grassa nas aldeias, principalmente em dias de calor, quando não há o que fazer a não ser render-se à preguiça.
E ''sair à francesa'' é qualificado como costume francês, pelos ingleses. Os franceses, que primam justamente pela etiqueta, inverteram a expressão para ''sair à inglesa''. Nos dois casos, indica o ato de abandonar uma festa sem se despedir de ninguém. Se ''sair à francesa'' é frase que pode ter tido origem em costume francês que na hora da partida evitava interromper o divertimento dos outros convivas, pode também estar radicada na expressão ''saída franca'', indicando mercadorias sem impostos, que não precisavam ser conferidas.
Alguns pesquisadores situam o surgimento da expressão na época das invasões napoleônicas, mas o escritor português Nicolau Tolentino de Almeida, falecido em 1811, aos 71 anos, cuja poesia satírica visava aos usos e costumes de Lisboa, registrou-a muito antes nestes versos: ''Sairemos de improviso/ despedidos à francesa''.
Nenhuma etnia, porém, é mais maltratada em expressões do português do que a africana, de que é exemplo a preconceituosa ''serviço de negro''. Grande injustiça! Se não fosse o serviço dos negros, estaríamos todos na Idade da Pedra Lascada, aborrecidos com programas de índios.