Vaga-lume é palavra imposta arbitrariamente pelo padre e lexicógrafo Rafael Bluteau. Caga-lume e caga-fogo, nomes que o povo dera ao inseto luminescente, foram considerados obscenos pelo famoso dicionarista, autor do
Vocabulário português e latino. A denominação original, entretanto, invenção de portugueses e brasileiros, apoiou-se em conhecido procedimento científico, a observação. Com efeito, o inseto acende sua luz na parte posterior do abdome.
Mas as funções excretoras, não apenas na língua portuguesa, são vinculadas a terríveis desgraças, explicitadas em palavrões e embutidas em alusões à sexualidade, integrando um batalhão de palavras e frases sacadas pelo falante para ofender e injuriar o interlocutor.
Quando o propósito não é injuriar nem ofender, o recurso é o eufemismo, de que são exemplos a expressão ''ir aos pés'' e os verbos defecar e evacuar, embora este último seja empregado também em outros contextos, que alteram seu significado. Pois há grande diferença entre evacuar no banheiro e evacuar uma sala.
O propósito natural do pisca-pisca do inseto é aproximar macho e fêmea para a procriação, realizada à noite, em meia-luz, em sistema de iluminação portátil, que lembra boate particular, onde somente entra o casal portador das luzes. A luz, embora não seja psicodélica, é amarelo-esverdeada.
Bluteau, que viveu entre os séculos 17 e 18, era frade da ordem dos teatinos, congregação religiosa fundada em Roma por São Caetano de Tiene e Gian Pietro Caraffa, mais tarde eleito papa por quatro anos, com o nome de Paulo IV. Os luso-brasileiros relutaram em aceitar nomes derivados do latim (cincindela) e do grego (lampyris,), de onde veio pirilampo, para designar o inseto, preferindo caga-fogo e caga-lume. O frade queixava-se a seus pares de que somente a língua portuguesa, entre as neolatinas, acolhera ''nome tão imundo''.
A palavra fez um longo e complexo percurso para chegar a vaga-lume, forma abonada por Machado de Assis no conhecido poema Círculo vicioso. A escritora portuguesa Joana Josefa de Meneses, Condessa de Ericeira, já evitara o ''palavrão'', criando pirilampo, anagrama construído a partir do grego. Joana casou com o tio, que se suicidou - não por motivos lexicográficos, mas políticos - atirando-se da janela do palácio onde o casal morava.
Rafael Bluteau informa ainda que foram propostos à academia vagolume, fuzilete, noiteluz e bicho-luzente. Os dois primeiros não foram aceitos. O povo tem sobre a língua, queiram ou não os gramáticos, um poder avassalador. Não é a única palavra da língua portuguesa que teve excluídas alusões a funções sexuais ou excretoras. Também o comerciante de livros usados foi originalmente denominado caga-sebo, forma que o Visconde de Taunnay registra em suas memórias. Mais tarde virou apenas sebista. Algumas dessas interpretações podem ser encontradas no Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos, do polígrafo e jornalista cearense Raimundo Magalhães Júnior, imortal da Academia Brasileira de Letras, falecido em 1981.
Outro exemplo está no recurso ao ato sexual, que virou metáfora para a pessoa se dar mal na vida. Se não houvesse tal neurose sexual disfarçada na linguagem, o receptor retribuiria com agradecimentos comovidos, desejando igual sorte ao emissor e a seus familiares, com destaque para sua mãe, chamada de genitora em alguns contextos, mas nunca naqueles em que o propósito é injuriar o filho. Veja-se que ''filho da mãe'' é expressão ofensiva, equivalente a bastardo.
Por falar em neologismo, recentemente até o CNPQ denominou ''newsletter'' o seu boletim informativo, escrito em português e remetido a pesquisadores brasileiros.