A crase, ao contrário de Minas, não está onde sempre esteve. Uma tropa de choque, composta de crases deslocadas, macula expressões, comunicados, editais, informes e avisos, tornando-os estranhos ao espírito de nossa língua.
Legiões de crases indevidas, somadas a outros erros em exibição, não teriam chegado aonde chegaram sem encontrar resistência de ninguém, sejam redatores ou revisores, se o nível de nosso ensino não tivesse caído tanto.
Ao dar voto aos analfabetos em 1988, talvez os parlamentares estivessem de olho nos eleitos e não nos eleitores. Pois não é possível que tantas sejam as autoridades que não percebam a derrota de nossa língua em tão abundantes amostras. Afinal, por trás de todos os cargos que não são preenchidos por concurso público há alguém, eleito pelo povo, que em última instância é o principal responsável por ter escolhido a quem escolheu para ocupá-los. Um prefeito pode não saber direito o português, mas não é possível que sua Secretaria da Educação seja dirigida por quem, não apenas desconhece, como também desrespeita a língua. Ou permite desrespeitos.
Um dos piores exemplos é dado nas placas de trânsito, humilhando motoristas e passageiros. Os responsáveis por tais erros públicos estão incorrendo em abusos e quem sabe pudessem ser devidamente enquadrados. Não sei como é que o Ministério Público ainda não tomou providência nenhuma. Afinal, a língua é patrimônio público, a língua não foi privatizada. Talvez seja o caso de impetrarmos habeas-corpus que nos garanta o direito de não cumprir leis, normas, determinações e avisos mal escritos.
''Rodovia Washington Luiz'' e ''Santa Engrácia à 20km'' são placas com dois erros. Quem escreveu tais palavras quis identificar a estrada e informar que a localidade está a 20km do ponto em que foi posta a placa. Aliás, rodovia é neologismo criado pelo presidente Washington Luís (com ''s'' e não com ''z''), que estava na Presidência da República na famosa crise de 1929. Ele juntou duas palavras, via e rodar, vindas do latim: via, caminho, estrada, e rotare, rodar, percorrer. É ele o autor da frase famosa, que resumia seu programa de governo: ''governar é abrir estradas''.
A crase desnecessária sobre o ''a'', que no caso funciona como preposição, é um dos mais freqüentes exemplos conhecidos como hipercorreção ou ultracorreção. Em qualquer dos casos, a denominação gramatical é controversa.
Com efeito, hipercorreção e ultracorreção semelham eufemismos que evitam o óbvio: identificar o erro. Quem põe crase onde não deve, erra. Indo além de onde deveria, vai a lugar errado. Os prefixos ''hiper'' e ''ultra'', presentes em outras palavras, favorecem tal entendimento. Um hipermercado vai além de um mercado ou de um supermercado. De todo modo, sua essência é a mesma. É um mercado.
Com a crase sobre o ''a'', não se dá o mesmo. A crase indica contração de preposição com artigo, duas classes gramaticais diferentes.
Explico a abertura da coluna de hoje. Na crise da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 agosto de 1961, o escritor Otto Lara Resende, autor de frases memoráveis, assim definiu a posição do então governador Magalhães Pinto: ''Minas está onde sempre esteve''.
E Ferreira Gullar fez curioso esclarecimento: ''a crase não foi feita para humilhar ninguém''. Mas, à revelia de muitos, está humilhando os brasileiros há muitos anos e a muitos quilômetros dos gabinetes. Às vezes, é dentro dos próprios palácios que a crase, somada a outros erros grosseiros, age como inimiga solerte conspurcando documentos oficiais que atestam a ignorância dos redatores. Afinal, que autoridade pode revisar o papelório que é obrigada a assinar todos os dias?