Um delegado do Piauí queria saber se o governador o chamara de ''abestalhado'' ou de ''abestado''. Governava aquele Estado o hoje senador Francisco de Assis de Moraes Souza, o Mão Santa, um dos mais folclóricos da Casa. O delegado procurava sutis diferenças entre as duas qualificações. Seu propósito era claro: ''quero saber qual dos dois dói menos''.
Questões assim transcendentais são corriqueiras em todo o Brasil. Temos um desesperado amor por nossa língua e manifestamos admiração por quem sabe falar e escrever corretamente. Ou de um modo que o povo considera correto. Provavelmente a fama e os votos de Jânio Quadros devem muito a seu português insólito, porém escorreito.
Outro político célebre, João Neves da Fontoura, ao elogiar alguém, creditou-lhe ''linguagem escorreita e fluente'' e ''lógica inamolgável''. Inamolgável é o que não se pode amolgar, amolecer. Amolgar veio do latim ''admollicarre'', tornar ''mollis'', mole. Daí a qualificação de molenga, dirigida a pessoa sem energia, preguiçosa, indolente.
Quando o capitão Wilson Machado e o sargento Guilherme Rosário, oficiais do Exército, levaram uma bomba para explodir no Riocentro, em abril de 1981, coube ao coronel Job Lorena de Sant'Anna fazer o relatório do incidente, que resultou na morte do sargento, em cujo colo a bomba estourou, e em ferimentos no capitão. O relatório foi uma farsa, mas como Sant'Anna utilizara o verbo ''empolgar'', vários jornalistas caíram na armadilha e, deixando um pouco de lado a gravidade do que ali houvera, passaram a discorrer sobre o significado de ''empolgar''.
Empolgar e empolgação remetem a declinações do latim ''pollex'', polegar, indicando, entre outros, o exercício do poder. Sem o polegar, como agarrar?
O coronel utilizara o vocábulo no sentido de tomar com as mãos. E não com o significado costumeiro de entusiasmar-se, como o Jornal do Brasil registraria em 13 de novembro de 1986: ''a rápida chuvarada que caiu... só fez aumentar a empolgação, e guarda-chuvas abertos ensaiaram um frevo''. Na campanha de 2002, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o Riocentro como metáfora, advertindo o então presidente Fernando Henrique Cardoso para não creditar a crise às eleições ''porque isso poderia ter o efeito da bomba do Riocentro, poderia estourar no colo do próprio governo''.
O Aurélio não registra abestado. Registra apenas abestalhado. O Houaiss consigna os dois e tira a dúvida do comissário que se julgou ofendido, mas queria saber qual das duas formas fazia estrago maior. Abestalhado pode ter o significado de admirado. Abestado limita-se a comparar o ofendido a uma besta.
Abestalhados devem ter ficado os colegas senadores quando Mão Santa declarou que o ''Brasil é grandão porque o povo do Piauí expulsou o interventor português''. Referia-se o senador à Batalha de Jenipapo, travada no dia 13 de março de 1823, por ocasião da guerra entre portugueses e brasileiros pela Independência. E o Ceará foi parar na variação dialetal que nossa língua apresenta no Piauí, que é a expressão ''ai vai'', indicando admiração. Está abonada na Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês, de Paulo José da Cunha, ex-repórter do Jornal do Brasil, ''o único piauiense com certificado de garantia'', segundo o escritor, também de lá, Cineas Santos. ''É uma exclamação de surpresa. Ai vai, menina! Quer dizer que Iracema do José de Alencar era piauiense? Era sim, tá lá no romance: 'além, muito além daquela serra nasceu Iracema...' A serra é a da Ibiapaba, que separa o Ceará do Piauí. Além, muito além daquela serra é o Piauí...''.
E jóia rara, que na Bahia e no Rio indica pessoa ou coisa de alto valor, no Piauí é sinônimo de tratante, trambiqueiro.