Há um cerco ao fumante no mundo inteiro. No Brasil, o Ministério da Saúde adverte a todos que o fumo faz mal à saúde. Nas campanhas publicitárias, porém, a vítima é a língua portuguesa, pela qual deveria zelar. Afinal, não faz sentido boicotar a missão de outros ministérios, como o da Educação e o da Cultura.
É verdade que muitos cursos de Direito formam advogados que não sabem fazer uma simples petição sem ofender a mãe gentil, mas ainda assim é comum que a desajeitada maneira de escrever não impeça que os clientes obtenham os remédios jurídicos indispensáveis.
Precisamos discutir a questão da língua, como propõe o projeto do deputado federal Aldo Rebelo, ainda que mais preocupado com os abusos dos neologismos. Semana passada, a Folha de S. Paulo cometeu, aliás, uma ironia curiosa. Como o jornal aboliu o trema, fez com que o parlamentar errasse a grafia de todas as palavras que requerem o sinal diacrítico. Diacrítico veio do grego diakritikós, radicado em diakríno, separar, distinguir um do outro.
A freqüência de tais erros confunde alunos que lêem o jornal, pois se escreverem daquele modo nas provas, o professor certamente os advertirá dos enganos cometidos. Escola, imprensa e publicidade precisam entrar num acordo: a língua é a mesma para as três? Ora, a língua oficial do Brasil é a mesma para todos e ainda não foi privatizada.
A freqüência do erro, sobretudo na imprensa e na propaganda, desconcerta os educadores e outros cidadãos empenhados em ensinar pelo exemplo, como é o caso dos pais dos alunos que acompanham as lições dos filhos e ficam sem resposta diante de sábias questões dos pimpolhos, que alegam terem ouvido e lido outra coisa, como em antiga propaganda da Caixa Econômica Federal, que convidava: ''vem pra Caixa você também''.
Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico, diz o provérbio. No caso da medicina, pode ser mortal. Talvez muitos médicos prescrevam em garranchos para que os clientes e as farmácias não descubram que os doutores não sabem escrever, omitindo, assim, uma questão que poderia inquietar ainda mais os doentes: saberá diagnosticar os males que os afligem, tratá-los com dignidade e manejar com precisão o bisturi um profissional que comete erros ortográficos que podem transformar um remédio em veneno?
E o que se faz quando o próprio Ministério da Saúde tropeça na língua portuguesa? Quem cuidará das fraturas? Quais os ortopedistas a quem devemos recorrer? Com efeito, em cartazes que espalhou pelo Brasil inteiro, o Ministério da Saúde denuncia os males do fumo em péssimo português. E o que fazemos com os males do estilo ali empregado?
Um dos cartazes apresenta uma modelo com um cigarro na mão. Ela é a mocinha. O cigarro, o bandido. A mensagem tem obviamente fins educativos. A advertência é: ''fiquesperta''. A forma escolhida - ''fiquesperta'' - aprovada no Ministério da Saúde, é reprovada no Ministério da Educação, cujo ministro se queixa, com razão, de que as verbas são insuficientes para tirar o Brasil de péssima companhia: está no rol dos países cujos alunos não entendem o que lêem.
Em outro cartaz, o mocinho substitui a mocinha. E o erro troca de gênero: ''fiquesperto''. A referência não é mais o cinema, é o esporte. Logo abaixo vem a advertência: ''o cigarro usa o esporte e a moda para te prejudicar''. O erro adicional é de concordância, que foi para o espaço. Publicitário, no caso.
O Ministério da Saúde está doente. Foi atacado por estafilococos muito freqüentes em propagandas. Eles pertencem a um gênero de bactérias que atuam também em outros ministérios. De acordo com o dicionário Aurélio, ''isoladamente, em pares, ou em aglomerados irregulares''. E ''são potencialmente patogênicas, produzindo lesões locais e graves infecções oportunísticas''.
Será o caso de encaminhar os cartazes para a Fundação Oswaldo Cruz?