Uma das características mais perversas da nossa sociedade está na desvalorização do trabalho. No Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, o desapreço ao trabalho, sempre mal remunerado, tem como contrapartida a esperança que os brasileiros desesperados projetam no jogo.
Joga-se no bicho, na loto, na sena, nas corridas de cavalo, na ''raspadinha'', na loteria esportiva, no carteado, na porrinha etc.
É um fenômeno contraditório. O jogo é esperança de sucesso para indivíduos isolados e é um beco sem saída para as aspirações de grupos ou de movimentos sociais.
O jogo nunca resolve problemas coletivos. As pessoas jogam, entretanto, porque o caminho da superação das dificuldades pelo trabalho, na nossa sociedade, é um caminho inviável. Como o trabalho é mal pago, passa a ser visto como atividade de ''otários''.
Essa designação abrange, naturalmente, a imensa maioria da população brasileira. E influi numa diminuição da nossa auto-estima, levando-nos de vez em quando a perguntar para nós mesmos: somos, afinal, um povo de ''otários''? Nosso trabalho vale mesmo a pífia remuneração que recebemos por ele?
Essa pergunta volta a se apresentar, dramaticamente, em face da discussão sobre o reajuste do salário mínimo.
Com base numa argumentação estrita e estreitamente econômica, alega-se que não há dinheiro para que em determinadas regiões o Estado possa arcar com os compromissos que resultariam de um aumento um pouquinho mais significativo.
A argumentação exclusivamente econômica, pelo próprio fato de ser exclusiva, é facciosa, ideologicamente distorcida. É circunstancial, encara a situação atual como se ela fosse imutável, como se não houvesse alternativa para ela.
Nenhuma situação, contudo, pode ser compreendida em termos puramente econômicos. A economia é um poderosíssimo instrumento de pesquisa para os cientistas sociais em geral, porém, na medida em que monopoliza a compreensão e a explicação de algo, introduz um mecanismo mistificador na construção do conhecimento.
O desafio, para os economistas, não é o de constatar e descrever os inúmeros e poderosos obstáculos que atravancam o caminho do aumento substantivo do salário mínimo. O desafio, mesmo, é o de apontar os caminhos viáveis para que se alcance o aumento do salário mínimo.
Não é o ser humano que é feito para o salário mínimo; é o salário mínimo que é feito para o ser humano.
Uma medida econômica, dentro do sistema vigente, não pode ser considerada mais importante do que uma reanimação geral dos brasileiros, econômica, social, política, cultural, psicológica e eticamente, tal como se poderia tentar fazer por meio do salário mínimo.
Enquanto esse desafio real não for enfrentado, a discussão sobre o aumento do salário mínimo estará sob suspeita, como observou Emir Sader, aqui mesmo no JORNAL DO BRASIL de domingo passado. É constrangedora a tentativa de justificação do injustificável, feita por dirigentes do PT, que até pouco tempo atrás defendiam princípios que hoje parecem ter sido esquecidos.
Todos temos, é claro, o direito de mudar de idéias. Os partidos políticos, em especial, precisam estar atentos para acompanhar as modificações que acontecem no campo de batalha.
O Partido dos Trabalhadores, hoje, é muito diferente do que era há duas décadas. Essa mudança, em si mesma, não é problemática. O que é perturbador é o COMO a transformação se verificou.
No encaminhamento da mudança ocorrida no PT não houve uma ampla discussão, franca, sobre os princípios que constituíam a identidade do partido. Se a massa dos militantes tivesse se manifestado, é provável que ela considerasse o aumento do salário mínimo uma conseqüência absolutamente necessária do princípio da luta contra a desvalorização do trabalho.
O fato de ter mudado não justifica que o PT abandone os princípios constitutivos da sua identidade. Não se trata apenas de uma questão política. Trata-se de uma questão ética.