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Tortura: absolutamente intolerável


Quais são os limites de um ser humano? Os êxitos dos nossos atletas mostram que o ser humano pode sempre se superar a si mesmo. Não é possível saber antecipadamente quais os limites de cada pessoa. Isso dizia há quatro séculos o filósofo Giordano Bruno, quando recomendava: vamos deixar que todos mostrem suas capacidades na corrida. Quando não agüentarem mais e forem caindo, cada um mostrará seu limite.

Mas, além dos limites individuais, que vão sendo heroicamente modificados, existem outros limites, universais, mais intransigentes. A morte, por exemplo. Não sabemos quando ela chegará, mas temos certeza da sua chegada.

Mesmo se deixarmos de lado o limite supremo da morte e nos fixarmos nos limites que a vida nos impõe, seremos, provavelmente, levados a encarar limites de outro tipo: os limites morais.

Todos nós temos uma escala de valores, por mais confusa que seja. Todos temos algumas convicções a respeito do que é certo e do que é errado. E sabemos o que é para nós absolutamente insuportável.

Fazemos concessões, é claro. Quem não as faz? Mas sentimos a necessidade de preservar um certo ''caroço'' ético fundamental.

Quando a ordem das preferências se tumultua, esse ''caroço'' fala e diz coisas muito claras. Uma delas é a condenação da tortura, qualquer que seja a sua forma, quaisquer que sejam as circunstâncias.

A nova edição de Tirando o capuz, livro clássico de Álvaro Caldas, nos faz revisitar o inenarrável: a dolorosíssima, absurda, monstruosa experiência da tortura, tal como foi vivida entre nós, na onda de repressão do final dos anos 60 e na primeira metade dos anos 70.

Álvaro Caldas recordou diversos momentos extremamente desagradáveis, evitando, porém, que o caráter desagradável dos acontecimentos recordados se transformasse num texto desagradável. Como observou Franklin de Oliveira, o tom brechtianamente ''distanciado'' se tornou uma das fontes da emoção que o leitor sente ao ler o livro.

As duas histórias acrescentadas a esta quinta edição da obra mostram complicações subjetivas que se manifestaram até na relação de militares suspeitos de serem torturadores com suas respectivas famílias.

A tortura deixa marcas indeléveis da sua sujeira moral por onde passa. Quem a tolera é contaminado pela sua putrefação.

Os seres humanos podem se elevar acima dos deuses e podem rastejar mais baixo que os répteis. Quando o nível da baixeza máxima é ultrapassado, contudo, não é mais a pessoa que está atingida pela deterioração: é a própria condição humana que se apresenta, assim, conspurcada. ''O cenário de uma câmara de tortura'' - escreveu Augusto Nunes - ''é o da condição humana em farrapos''.

Diante do acontecido, impõe-se a todos os seres pensantes um esforço dramático de aprofundamento de uma reflexão crítica: o que é que, dentro de nós, tem tanta força que é capaz de transformar um homem em um torturador?

Álvaro Caldas não envereda por esse caminho de especulações filosóficas angustiadas. Com certeira intuição democrática, ele amplia a área dos possíveis leitores, contando histórias, envolvendo mais gente numa conversa que deve interessar sempre a mais gente.

O tema da tortura não pode ficar restrito a estudos científicos (por mais necessários que eles sejam).

Se existe algum limite ético universal hoje - algo que precisa ser reconhecido como o absolutamente intolerável - esse algo é a tortura. O sujeito que vai além desse limite expõe seu ''caroço'' ético à completa destruição.

Não basta denunciarmos a tortura, em todas as suas formas. Não basta mostrarmos a hediondez das ações dos torturadores. É imprescindível que todos nos mobilizemos num esforço enorme, numa espécie de campanha permanente para criar condições que tendam a reduzir ao mínimo possível as ocorrências e os casos de tortura.

O livro de Álvaro Caldas contribui para isso.


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[17/ABR/2004]


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