Quando começaram a se multiplicar as decepções com o comunismo, diversos intelectuais substituíram a militância política pela atividade literária. Nem sempre a literatura se enriqueceu com as adesões. No caso da Espanha, porém, o deslocamento revelou dois escritores excepcionalmente talentosos (e muito diferentes um do outro): Jorge Semprún - que acaba de publicar um belo romance intitulado
Veinte años y un dia - e Manuel Vázquez Montalban, que morreu na semana passada, fulminado por um enfarte no aeroporto internacional da capital da Tailândia.
Tal como Semprún, Montalbán chegou a integrar a direção do Partido Comunista Espanhol, antes de decidir trilhar outros caminhos. E, tal como Semprún, aproveita na ficção literária um rico material proporcionado pela sua experiência na militância. Percebe-se, de resto, que em ambos os escritores a paixão pela política continua a arder nos romances que escreveram. Vou me concentar aqui na obra de Montalbán, recém-falecido.
Montalbán fez sucesso com três biografias: a do general Franco, cuja ditadura ele combateu o tempo todo (e foi condenado a três anos e meio de prisão); a de Dolores Ibarruri, chamada A Passionária, ícone do comunismo espanhol; e a do aventureiro e ambíguo líder nacionalista basco Jesus Galindez. ( O profeta impuro).
O que fez dele uma celebridade, entretanto, foi uma série de romances policiais que giram em torno do detetive Pepe Carvalho, ex-comunista desiludido, entregue cada vez mais à curtição dos prazeres da mesa. Os críticos e o público, em geral, ficaram entusiasmados com as aventuras desse herói (que também é - não podia deixar de ser - um ''anti-herói'').
Pepe Carvalho é tão apaixonado pelos requintes culinários que contratou um chef catalão, chamado Biscuter, que cozinha exclusivamente para ele. Fazem parte da série O labirinto grego, Os mares do Sul e O Quinteto de Buenos Aires, todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras. Para mim, pessoalmente, a obra-prima é o livro Assassinato no Comitê Central (ed. Graal).
O ponto de partida é, ao mesmo tempo, sinistro e hilariante. O Partido Comunista Espanhol, após um longo período de clandestinidade, vai realizar pela primeira vez na Espanha, legalmente, uma reunião do seu Comitê Central. Os seguranças estão todos fora do recinto, há uma pane na eletricidade, o salão fica escuro durante dois minutos e, quando volta a luz, verifica-se que o secretário-geral, Fernando Garrido, foi assassinado, com um facão enfiado em suas costas.
O governo abre um inquérito e designa o comissário Fonseca, no qual os dirigentes do Partido não confiam. Resolvem, então, contratar o maior detetive particular conhecido, o ex-companheiro Pepe Carvalho. O detetive cobra caro (eles pagam) e avisa que vai levar a investigação às últimas conseqüências.
Segue-se a vertiginosa narrativa das ações realizadas (ou tentadas) por gente que o leitor não sabe ao certo se pertence à polícia espanhola, aos serviços secretos da União Soviética ou ao Federal Bureau of Intelligence (FBI) dos Estados Unidos.
Pepe Carvalho é mesmo um osso duro de roer. Acontece-lhe, em alguns entreveros inevitáveis, apanhar muito, passar por péssimos momentos; terminada a leitura, contudo, garanto que o leitor estará convencido de que o detetive é mais de bater do que de apanhar.
O assassino é identificado, mas não chega a ser preso. Desmascarado, sai à rua e é imediatamente fuzilado por russos ou norte-americanos (como saber?).
Pepe Carvalho se retira para um bom jantar, preparado, naturalmente, por Biscuter.
Desde que se desiludiu, trata de preencher com boa comida certo vazio interior. Recorda com melancolia o tempo em que a Causa lhe dava alento, o comunismo era a transformação revolucionária do mundo. Sua fé morrera, ele próprio se sentia meio morto. O estômago vazio lhe dizia que em breve estaria, não meio, mas inteiramente morto.
Nessas horas, antes de se dedicar às criações gastronômicas do chef, imagino que ele talvez especulasse: de que maneira vou morrer? Como se dará o triste evento?
E tenho certeza de que jamais pensou na possibilidade de ser fulminado por um enfarte no aeroporto internacional da capital da Tailândia.