O torneio do US Open está meio devagar por causa das chuvas que têm caído em Nova York nos últimos dias. Talvez haja problemas para terminar os jogos no dia previsto, caso persistam as chuvas. O campeonato deverá ficar embolado com o grande número de partidas atrasadas. Os tenistas não terão mais dia de descanso entre os jogos, como de praxe em torneios de Grand Slam. O preparo físico talvez seja mais decisivo ainda no resultado final, pelo pouco tempo de recuperação dos tenistas em partidas longas.
Sampras e Agassi
Agora que Pete Sampras já se despediu das quadras, fiquei lembrando das grandes partidas desse monstro do tênis. Jogos históricos contra Boris Becker, Stefan Edberg, mas a maior rivalidade é, sem dúvida, Sampras-Agassi. O que faz a rivalidade se tornar especial? Em primeiro lugar, o ideal é que haja contraste na maneira de jogar. Se houver contraste também na personalidade, melhor ainda. Esses dois tenistas não podiam ser mais diferentes, tanto dentro quanto fora da quadra. A única coisa parecida entre eles é que os dois são destros. Até nisso Borg e McEnroe eram diferentes, outra rivalidade histórica no fim dos anos 70.
Quanto ao estilo de jogo, Sampras gostava de ditar o ritmo forte de jogo com o saque, tentando finalizar logo o ponto com um ace ou o voleio ganhador. Agassi, ao contrário, é como um lutador de boxe que vai minando as forças do adversário, prolongando os pontos propositadamente, fazendo o adversário correr de um lado para o outro da quadra. É comum ver o Agassi perder o primeiro set e, aí sim, começar a definir os pontos com as bolas cada vez mais anguladas, e o adversário cada vez chegando mais atrasado nas bolas, deixando o outro canto da quadra livre para o winner. Poucas vezes vi Agassi perder uma partida num quarto ou quinto set. Ou você ganha do Agassi em três sets seguidos ou, como acontece na maioria das partidas, depois de uma bela exibição de tênis por um ou dois sets, Agassi toma conta da partida.
Sampras sempre foi o bom menino e Agassi, o contestador, aquele tenista rebelde que desafiava as tradições, com seu cabelo comprido, brinco na orelha e roupas extravagantes na quadra. Durante anos ele preferiu não jogar em Wimbledon por não aceitar o fato de ter de jogar com o fardamento predominantemente branco, como exige a tradição daquele torneio.
Já uma partida entre Serena e Vênus Williams não desperta tanto interesse, apesar de serem as melhores. A rivalidade entre Chris Evert e Martina Navratilova, por outro lado, era sensacional, porque as duas eram um contraste só, dentro e fora da quadra. Talvez por causa disso tenham se tornado amigas, inclusive jogando juntas vários torneios de duplas.
Um dia antes de embarcar para uma das poucas rodadas de Copa Davis que Sampras e Agassi jogaram juntos, contra a Itália, fizeram a final em Key Biscaine, Miami. Agassi venceu e depois da partida ofereceu uma carona para o Sampras no seu avião para Nova York, antes de fazerem a conexão Nova York-Londres de Concorde. No avião do Agassi, um Citation 10, uma bola de tênis em chamas, como símbolo na asa, e uma aeromoça atenciosa esperando-os com muita comida e bebida. Sampras perguntou: ''Você sempre viaja assim?'' E Agassi respondeu: ''Essa é a única maneira que eu viajo, vai acrescentar anos à minha carreira...'' E Sampras continuou: ''Eu gosto da maneira como você viaja, quanto custa isso?''
No papo entre os dois, Sampras perguntou ainda sobre o técnico de Agassi na época, o Gisbert, hoje técnico de Roddick. Agassi respondeu que Gisbert tinha dado estrutura ao seu jogo. Até então, Agassi disse que não tinha noção do jogo de tênis. Na cabeça dele era só dar paulada na bola e esperar pelo resultado. Logo, ganhava de tenistas bons e perdia para os ruins. E Sampras rebateu: ''A única coisa que quero de um treinador é que cheque o toss (lançamento da bola) do meu saque.'' Na época Agassi talvez fosse seu maior adversário.
A melhor partida entre os dois foi nas quartas-de-final do US Open, em 2001, vitória do Sampras, com 6/7, 7/6, 7/6, 7/6. Após a partida, John (gênio) McEnroe disse: ''Eu tenho muita sorte de ter sido o comentarista do jogo na TV e de estar presente a esse encontro.'' No ano seguinte, fizeram a final nesse mesmo torneio, que acabou sendo a última partida oficial do Sampras. Naquela partida, todo mundo saiu ganhando, os dois tenistas, mais o tênis.
É disso que o tênis necessita. Talvez daqui a alguns anos possam dizer a mesma coisa de um Hewitt, Federer ou mesmo do Roddick, mas por enquanto ainda falta muito chão para pisar.