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As sardinhas do velho

JOAQUIM FERREIRA DO SANTOS

Anunciaram e garantiram que a empadinha do Lisboeta ia se acabar. Não vai mais. Melhor assim. As empadinhas do Lisboeta, do Salete e do Alvaro's são pequenos tijolos sobre os quais se fundam a civilização carioca. Acimente com a pasta de moela servida na Adega Pérola, regue a festa da laje com a batida de amendoim do Tangará - e vai rolar a festa novamente. Não esqueça a do santo. O Rio está precisando.

De canas não entendo abacate, mas tempos atrás, graças ao prefácio que perpetrei para o extraordinário Confesso que bebi, do Jaguar, passei a ser olhado como gente do ramo. Imagina! Ledo, ivo, austregélico engano. Não bebo - e daqui dá para ouvir os mais cínicos se cutucando, ''então é isso!'', finalmente donos de uma explicação para tamanha patetice. Não bebo, mas como. E é uma pena que não se coma mais em botequins.

''O botequim é um fast food de vanguarda e só existe no Rio e em Lisboa'', afirma Carlos Lessa no recém-publicado Os Lusíadas na aventura do Rio moderno. Meu pai, e agora está explicado porque trafego hoje por esses balcões nostálgicos, tinha um fast food assim. Primeiro na Vila da Penha. Depois na Praça Quinze. Sem saber, do mesmo jeito que centenas de outros comerciantes portugueses, reproduzia nos balcões do Rio a gastronomia das sardinhas de Lisboa.

''Sardinha na chama, mulher na cama'', dizia o velho Joaquim conclamando a freguesia. Era um bordão luso e também está registrado no livro de Lessa. Aqui não pegou, óbvio. O cheiro da sardinha não vibrava com sexo e, no Rio, uma sardinhada com cerveja podia até terminar na cama mas no sentido reparador da coisa. A comida portuguesa é muito saborosa, e neste momento escrevo ajoelhado sobre uma receita de açorda com morcelas, mas nem um pouco afrodisíaca e sedutora.

O publicitário Celso Japiassu, pesquisador dos paladares lusos, capaz de viagens intercontinentais em busca de um raro leitão à Bairrada, na Mealhada, garante. Não há caso registrado de casal saído do Adegão de São Cristóvão, de braços dados com a digestão de um bacalhau Zé do Pipo, para um motel pós Linha Vermelha. A não ser para um soninho reparador.

Já não se faz mais Dia dos Pais como antigamente, pelo menos não me cheiram mais as sardinhas lusas do almoço familiar. E a comida de balcão das ruas do Rio também não vai muito bem dos rins acebolados. Salve o arenque defumado naquela esquina de Copenhague, viva o cachorro quente da calçada do Central Park. Por aqui só dá para exclamar a saudade do angu do Gomes da Praça Quinze.

Não é questão de reclamar da falta de higiene, pois esses tremeliques não ficam bem a quem reclama a delícia de escolher novamente entre uma dobradinha no espeto e uma porção de tremoços. Bem sabia o escritor João Antônio, outro gourmet desse tipo de azeitona cívica, que umas moscas em seu alegre saracoteio dão um certo tempero ao mocotó, ao jiló frito e ao testículo de peru.

O fast food de vanguarda, vulgo botequim ou pé sujo de unha feita, vai se desmoronando como uma empadinha mal feita, escapulindo como outros tijolos do nosso grande prédio carioca. Havia versões populares do Bracarense, bastião chique do bolinho de bacalhau, por todos os cantos. Em alguns, acredite, chupava-se um pé de galinha com sensações lúbricas. Ainda toma-se caracu com ovo, o viagra dos pobres, num boteco coberto de serragem em Bangladesh, aquela área ao redor da Central. Mas qual o sentido da vida - se me permitem misturar meu Dia dos Pais com a baixa gastronomia carioca - sem a sardinha frita no balcão?

[11/AGO/2002]

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