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Esta foi minha semana

1. No domingo, o campesinato invadiu Londres. Bem diferente dos quadros pintados por paisagistas-realistas bolcheviques. Curioso, fui às ruas do Centro no anseio de estar presente a um momento em que se estava fazendo História. Não vi uma foice ou ancinho. Ninguém de chapéu de palha. Quase todos tinham os dois dentes da frente na arcada superior. Um único cavalheiro (entrevistei-o) alternava, na boca, um cigarrinho de palha com uma longa haste verde dessas que se vêem nas ilustrações ingênuas depicting nossos irmãos rurais. O objetivo da passeata dos 400 mil - a maior em décadas - era mostrar a nós, citadinos, que a cidra, o bestialismo e a morte da raposa por esfacelamento canino eram coisas muito naturais, decorrências de um longo processo histórico a que o equivalente ao Iphan local deveria prestar mais atenção. Belo espetáculo! Dava gosto ver como os cartazes não continham erros de inglês, que, por sinal, inexistem por falta de demanda.

2. Que frescura é essa? Isso mesmo, que frescura é essa do Millôr com esse rapaz do Mascando Língua e do Clichê Vivo? Ficam aí, incestuosos, passando crases um no outro como se estas fossem a última palavra em matéria de vibrador. Parece até, parafraseando o poeta, que a crase foi feita só para humilhar (ou sacanear) os dois. Crase é pra gente segurar firme na mão e tacar no olho do outro. Esse papo, na época em que jornal tinha copidesque, não saía de jeito nenhum. Sujeitinho ia lá, tacava uma partícula apassivadora nos dois e, pronto!, assunto resolvido, poupando ao leitor o triste espetáculo de ver dois homens crescidos em plena mesóclise jornalística não só estéril como também beirando o heterossexualismo.

3. Na terça-feira, saiu o dossiê Saddam. Pelas ruas do West End, como na Avenida Rio Branco, quando saía uma tabela qualquer, homens e crianças anunciavam em voz alta e forte a venda do pequeno volume de 30 páginas contendo todos os fatos sobre as estripulias do ''Demônio de Bagdá'' e seus esforços para obter aquilo que nós aqui, no Ocidente, chamamos de ''armas de destruição em massa'' (ou é maciça, Millôr e rapaz?). Comprei, sentei num Starbucks (é uma cadeia americana que vende café de tudo quanto é jeito que você possa imaginar. Logo, logo chega aí e vocês vão ver que bosta de café andaram tomando estes séculos todos) e li. Parece que bastam 45 minutos para Saddam lançar sobre nós armas químicas, biológicas e nucleares. Só não entendi por que o homão lá não tacou isso tudo ninóis até agora. O que está claro é que se Bush, seguido do poodle Blair (ele late feito cachorro viado: Auf! Auf!), resolver seus problemas de petróleo com um ataque ao Iraque, 45 minutos depois nós aqui, no Hemisfério Norte, vamos comer o pão que o Diabo amassou, se me permitem um bordão novo.

4. Passei pelo maior terremoto na Inglaterra. Foi de noite. Segunda-feira. 4,8 na escala Richter. O epicentro foi lá em terras de campesinato. Midlands, por aí. Taqui no jornal. Não quer dizer nada para mim, mas se publicaram deve ser importante. Feito o dossiê do cara lá. Nesses séculos todos, só morreram 11 ingleses de terremoto. De vergonha. Sete se suicidaram porque (estávamos no auge do Império) qualquer tremor de terra com menos de 6,5 na escala do Richter (ainda estava vivo e acabara de inventar o terremoto) era inadmissível para um país povoado por gentlemen. Os outros quatro não contam, uma vez que eram indianos.

5. Lula acha que já perdeu as eleições. É a única explicação que encontro para explicar seu estranhíssimo procedimento nas últimas semanas. Querer armas de destruição nuclear, e químicas e biológicas também, juntamente com um dossiê e resolução controversa nas Nações Unidas, é humano, embora lamentável. Agora, insistir no uso do uniforme não me entra na cabeça. Refiro-me, claro, ao uniforme de perdedor, conforme moda lançada pelo falecido Al Gore, que, assim que constataram a trampolinagem lá nos votos floridianos, deixou a barba crescer, engordou e tirou a gravata. Ou será o contrário? Gore é que vestiu o uniforme do meu querido patrício e próximo presidente da República. Pára com isso, Lula! Raspa a barba, faz mais exercício e lembre-se que a gravata grená vai com terno azul como goiabada com queijo.

6. Cinqüenta anos sem o Chico Viola nesta sexta-feira. Formidável caixa com quatro CDs na etiqueta curitibana Revivendo. Chico seresteiro, sambista, carnavalesco e invertido (como gravou versão ruim, meu Deus!). Eu era mais Orlando Silva, mais Sílvio Caldas. Francisco Alves era mole imitar. Bastava cantar bem alto como se tivesse uma batata quente na boca. João Dias, O Príncipe da Voz, pode explicar direitinho. Foi num sábado que ele bateu com as 10. Só tocava o Cinco letras que choram, do Pimpinela (num dianta, cês num sabem quem é), na rádio. O negócio acabou me comovendo. Mas, na segunda-feira, dia do enterro, no São João Batista, foi tamanho engarrafamento que só se praguejou contra aquele que, até algumas horas antes, era o saudoso, o grande, o imortal Chico Alves, que logo passou a ser um bom filho da... e coisa e tal. Cês manjam. Nós, brasileiros, somos muito bons e sentimentais. E não entendemos porra nenhuma de crase.

[27/SET/2002]
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