A intensificação global da aversão a risco contaminou os negócios com ativos brasileiros, que fecharam o dia em queda. Mais uma vez, a alta das cotações do petróleo foi a faísca que induziu a preferência por papéis considerados mais seguros, o que desaguou em queda dos títulos de países emergentes como os do Brasil. O C-Bond, o soberano mais líquido, registrou queda de 0,56%, enquanto o risco-País avançou 1,83%. O mercado de câmbio refletiu o movimento e o dólar comercial teve alta de 0,71%, a R$ 2,840 na venda.
A tensão dos investidores com a persistência dos preços da commodity em níveis recordes, especialmente depois de repiques importantes na semana passada, foi intensificada hoje por expectativas de que esse quadro pode se agravar nos próximos dias, após a divulgação de notícias de que uma greve geral pode prejudicar a produção do óleo pela Nigéria, uma das maiores do mundo no setor.
Além disso, o rebaixamento da recomendação das ações de empresas mineradoras européias por parte do banco de investimentos JP Morgan incorreu em perdas pesadas dos papéis da Vale do Rio Doce na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Títulos de outras companhias, como os da CSN e da Petrobras, seguiram na mesma direção e fizeram o Ibovespa despencar 2,77%. O vencimento de contrato de futuros, na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), acelerou a tendência. O giro financeiro totalizou R$ 3,3 bilhões.
Relatórios de bancos voltaram a apontar preocupação de economistas com a velocidade da atividade econômica doméstica. O CSFB, por exemplo, já admite a possibilidade de que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do semestre corrente supere o da primeira metade de 2004.
Com alguns setores quase no limite do uso da capacidade instalada, o receio é que a incapacidade dessas cadeias em atender a demanda provoque elevação de preços nos próximos meses. ''Como o Banco Central (BC) está mais preocupado com a inflação de 2005, isso poderia levar a altas mais acentuadas da Selic nas próximas reuniões'', diz o diretor da Modal Asset Management, Alexandre Póvoa. No mês passado, a taxa básica passou de 16% para 16,25% ao ano. Com isso, as projeções para os contratos mais longos de contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) abriram na BM&F. A taxa estimada para o vencimento de julho de 2005 passou de 17,32% para 17,41%.
Atrás da energia
A permissão para que empresas com demanda contratada acima de 3 MW se tornem livres está multiplicando o número de interessadas por leilões privados de energia velha. No leilão que a comercializadora de energia elétrica Comerc faz no final do mês, já existem 19 interessadas, quase quatro vezes o número de interessadas da última operação, em agosto.
Entre as novatas, estão o Hospital Sírio Libanês, a Paramount e a Tigre. Além de garantir que o reajuste das tarifas não será maior do que o IGP-M, as companhias querem aproveitar a possibilidade de garantir preços de fornecimento até 30% menores. O leilão deve vender cerca de 250MW.
Funcionários fantasmas?
Nesta quarta-feira, uma comitiva de funcionários da Vasp visitou o assessor de aviação do Ministério da Defesa e entregou carta pedindo medidas Urgentes e Imprescindíveis (grifo do documento) para salvar a companhia. O pleito principal é de que o prazo do pagamento das dívidas da companhia com o governo seja ampliado a perder de vista. Segundo um dos funcionários, o documento contou com 9 mil assinaturas de apoio interno. Mas a Vasp só tem 8.774 funcionários.
Correria à vista
Para quem esperava que os trôpegos sinais de recuperação da economia dos Estados Unidos façam com que o Federal Reserve (Banco Central americano) relaxe na elevação das taxas de juros do país, cuidado. Para a consultoria LCA, números recentes da atividade industrial dos EUA sugerem uma intensificação da trajetória de reaceleração dos preços de matérias-primas e bens intermediários. Isso poderá reacender o receio nos mercados de que os preços mais próximos da ponta do consumo também possam reacelerar, o que poderia exigir uma postura menos complacente da política monetária.