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Alta febril
[05/AGO/2004]
A bolsa tem desmentido os prognósticos pessimistas e resistido ao contágio das quedas dos mercados americanos e europeus. Mais que isso, tem passado ao largo das incertezas em torno da permanência de Henrique Meirelles no Banco Central, o que não é pouca coisa.
Soa uma tremenda prova de força para a equipe econômica e a aposta restritiva de Antonio Palocci. Só que embute sinais crescentes de insegurança entre os investidores privados.
A procura por ações reflete o desconforto com o crescimento da dívida interna e a tentativa de reduzir a exposição a papéis federais. Tudo pelo temor de que uma relação dívida/PIB superior a 60% do Produto Interno Bruto desperte a tentação de renegociar à força prazos e custos dos títulos da União.
Sequer soa lógico, diante do fervor de cristão novo com que o governo petista descartou qualquer manobra heterodoxa. Mas o medo, nem sempre racional, gera custos extras para ser controlado.
Rumores de que uma das revistas semanais traria novos indícios de envolvimento de dirigentes do BC com doleiros alimentaram a especulação nos mercados futuros.
Projeções de inflação anual da ordem de 10% pioraram as coisas.
Os gaúchos da Gerdau, pelo visto, encontraram a fórmula para transformar o aço em ouro. As projeções da receita bruta para o ano que vem, atualizadas com base no desempenho deste trimestre, sobem de R$ 4 bilhões para até R$ 8 bilhões.
Denúncias envolvendo transações com doleiros certamente não preocupam Rodrigo Azevedo, convidado para a diretoria de Política Monetária do Banco Central.
Azevedo tem a seu favor a rígida postura adotada pelo CSFB, sua instituição de origem. O banco chegou a fechar contas de clientes ilustres envolvidos em operações do gênero.
A lista inclui até um ex-presidente do BC.
O bom desempenho do comércio eletrônico, lá fora e aqui, com Americanas.com e Ponto Frio, animou os negócios com a IdeasNet. Alta de 8% e volume expressivo, depois de meses no limbo.
O sinal que faltava para a hora de sair da bolsa, comentou um operador mais cínico.
Palestra de Mário Veiga, consultor influente no desenho do novo modelo do setor elétrico, deixou eufóricos analistas presentes ao Pactual, ontem. UBS e Santander, além do banco carioca, divulgaram relatórios destacando a redução do risco para as distribuidoras e o aumento da tarifa média para as geradoras.
O Pactual detém 5% das ações da Eletropaulo, presença constante na lista de Top Pics (mais recomendadas) do banco.
E ganhou recentemente uma concorrência para a gestão terceirizada de um fundo de pensão de funcionários de estatal.
Coincidências, nada mais, sustentam,
No início de uma das primeiras reuniões com grupo de economistas dos principais bancos do país - o chamado ''Grupo de Fátima'' - Henrique Meirelles foi taxativo: ''O que aqui se fala não sai desta sala''.
O clima, garante um dos que participaram dos encontros, lembrava o de uma sala de aula. ''O presidente do Banco Central mostrava-se irritado ao ser interrompido por perguntas mais específicas'', recorda o economista.
Luiz Pinguelli Rosa procurou a coluna para esclarecer que não considera o atual modelo de energia tão ruim como os anteriores. Admite a crítica à aposta exclusiva no setor privado, deixando-se a Eletrobrás, de enorme potencial de investimento, presa à tarefa de gerar superávit primário.
Não sem uma dose de ironia, lembra que essas ponderações faz desde o tempo em que presidia a estatal, e portanto não é ''nem tanto estilingue, nem tampouco vidraça''.
Com Carla Falcão
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