Quarta-feira, 19 de Setembro de 2001

A derrota da razão

Há uma expectativa mórbida no ar. A ansiedade pela entrada em cena da cavalaria. O momento em que John Wayne irá chutar a porta do saloon. A hora em que Schwarzenegger mostrará sua fúria empunhando o lança-foguetes.Tudo ainda parece um filme. E a narrativa segue, um a um, os truques de Hollywood.

Enquanto nossa Roma pós-moderna, atingida em seu orgulho, reage à castração de seus símbolos de poder e à morte de cidadãos inocentes, anunciando guerra e vingança, a primeira batalha, travada na cena da informação, vai dividindo o mundo entre bárbaros e civilizados, numa simplificação ideológica que vem bem a calhar. Não será preciso remorsos, não há razão para hesitar: você está sendo autorizado a odiar.

Se o terror seqüestrou a mídia para seus fins, a reação veio rápida. Tudo transcorre como se os pacíficos e educados ocidentais, em suas formas superiores de existência, se vissem agredidos inexplicavelmente pela barbárie, que se abate sobre a ''civilização'' como um raio em céu azul. Apelos politicamente corretos contra a generalização do sentimento anti-árabe, a essa altura solto nas ruas, são engolidos pelo turbilhão de imagens que deixam muito claro de que lado está o bem.

A pergunta incômoda, que não foi feita pela CNN e por suas sucursais, apareceu numa faixa de fanáticos do Talibã: ''Americanos, pensem: por que vocês são odiados pelo mundo afora?''

Certamente não se deve dar crédito a essa odiosa manifestação do obscurantismo que é o fundamentalismo islâmico. Mas não se deve, tampouco, acreditar que é possível separar o recrudescimento do fanatismo do contexto desse mundo de uma única potência e das posições que os Estados Unidos têm assumido nos conflitos do Oriente Médio. Elas se resumem ao apoio incondicional a uma das partes, mesmo contra as evidências de abusos, massacres e violações de resoluções das Nações Unidas.

Bush quer justiça. Os palestinos, os africanos, os miseráveis do mundo também. A percepção que os americanos têm de si mesmos é bastante diferente da percepção que um refugiado muçulmano tem da ''América''. Provavelmente nenhuma das duas é correta, mas não se trata de ''correção''.

A lista das atrocidades contra palestinos é conhecida e, embora recalcada, tem sido rememorada, aqui e ali, por analistas ocidentais, entre eles Robert Fisk e Noam Chomsky. Ela não serve, de modo algum, para esquecer os direitos do povo judeu ou as perseguições de que tem sido vítima, muito menos para justificar o que se fez em Nova Iorque. Ajuda, no entanto, a entender o mecanismo doentio da vingança e da retaliação, esse universo fatalista e ancestral da ''vendeta'' (tema, a propósito, do novo filme de Walter Salles) que governa as relações no Oriente Médio. Essa lógica perversa, tão banal nos conflitos árabe-israelenses, vai tomando de assalto o imaginário americano e poderá se propagar, numa escalada incontrolável, a depender da reação do Império a seus agressores. Talvez isso faça parte do cálculo ardiloso do terror.

O inferno que aconteceu em Manhattan e Washington não é obra de um bando de loucos, que resolveu, do nada, explodir o Pentágono e as Torres Gêmeas, ainda que a sociedade americana, ela mesma, seja capaz de gerar internamente esse tipo de insanidade - gente de todas as idades a disparar rifles contra inocentes em escolas ou a arrebentar prédios, como em Oklahoma.

Como todos sabem, porém, o que ocorreu foi fruto de uma ação coordenada, com estratégia e recursos. A convicção de que o atentado tem relações com o fundamentalismo islâmico é mais do que razoável. Osama bin Laden já foi escolhido. Vivo ou morto. Os americanos não parecem incomodados com os riscos de uma ofensiva devastadora contra alvos difusos. Estão dispostos a prosseguir, agora com motivos inquestionáveis, no papel de algozes de uma cultura cuja opacidade talvez mais facilmente se abrisse ao jeans e à pipoca do que aos mísseis e bombardeios.

Não há solução breve nem meramente militar para o problema do terrorismo e do fundamentalismo, a não ser em fantasias bélicas apocalípticas, com bombas atômicas varrendo os ''inimigos da América'' da face do planeta. Se é legítimo que os EUA tomem medidas militares, seria desejável que o Ocidente procurasse evitar o teatro da irracionalidade, fazendo política e não guerra. É preciso reconhecer que o mundo está a exigir instâncias de mediação mais eficazes para seus conflitos do que as organizações-fantoches de que dispõe. As questões externas são cada vez mais ''internas'' e não encontram mecanismos institucionais isentos para que possam ser encaminhadas e negociadas.

Não será pela força das armas que as assimetrias virão a ser superadas. É melhor esquecer John Wayne e Schwarzenegger. Isso não é um filme. Não há mocinhos. A guerra é a derrota da razão.

goncalves@jb.com.br


E-MAILS E TELEFONES
Copyright © 1995, 2001Jornal do Brasil S/A, Primeiro Jornal Brasileiro na Internet

 
Versão para imprimir   Enviar por e-mail