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Jogando xadrez com Mefisto

LONDRES - Como dizia meu mestre Haroldo de Campos, ''vender a minha alma eu não vendo, mas jogar uma boa partida com o diabo, ah, isso eu não perco por nada''. Cá estou eu, mais uma vez escrevendo sobre Haroldo. É que desta vez estou fazendo uma autobiografia parcial sobre meus encontros com Beckett e Haroldo.

E, em se falando em Mefisto, adoraria poder escrever sobre outra coisa senão a minha bunda. Mas o Ministério Público não deixa. Reabriram o processo e marcaram nova data. Na entrevista que concedi ao elegantérrimo Caco Barcellos da TV Globo, aqui em casa, eu digo que não estarei presente na tal audiência, que a Justiça brasileira está perdendo um tempo precioso e que achem mais o que fazer! Desde que o Garotinho despediu Luiz Eduardo Soares a violência do Rio só escalou. Olha como está a coisa agora! Terei a honra de ser o primeiro exilado brasileiro do governo Lula. Mas será uma pena. Amo o Brasil. Ele está no meu sangue e os projetos que eu teria aí no futuro iriam pro beleléu.

Mas será que o Garotinho e a Garotinha também os têm, quer dizer, princípios? Vamos voltar no tempo. Na época em que eu estava para estrear Esperando Beckett, com a Gabi, o Garotinho prometeu, garantiu, selou um acordo com a nossa produção de um apoio de R$ 50 mil. Tanto selou esse acordo que tivemos que ir correndo pra gráfica para imprimir, na última hora, a logomarca do Governo do Rio de Janeiro no programa da peça. Me perguntem se algum dia esse dinheiro saiu? Crentes? Evangélicos? Sempre desconfiei que isso fosse um engodo.

Hoje em dia, o Theatro Municipal opera de forma parecida. Produz óperas mas não pode aparecer como produtor (!!!!!). Portanto, emprega produtoras independentes. A última vítima, literalmente, foi Valéria Colela, da Luz Produções. Aliás, digo com orgulho e prazer que nunca trabalhei com produtora melhor. Sob um estresse terrível, sendo enganada, ludibriada por todos os departamentos do Estado, ela sempre se mostrava calma para nós, os artistas.

Valéria não foi paga até hoje. Melhor dizendo, ela pagou o pato. Empenhou a própria casa para poder fazer a máquina ir em frente. E por que tudo isso? Pra que essa farsa? Existe alguma explicação? Os cantores estrangeiros foram pagos na íntegra. E não foi pouco. Eu também fui pago. Mas por ela, e não pelo Municipal. Para desviar a atenção, a Garotinha me processa por ato obsceno. Entenderam a jogada?

E tem mais. Por causa de uma lei kafkiana, não se pode usar um membro do coro como solistas nos tempos de hoje. Numa administração que diz querer economizar dinheiro, por favor, me explique o seguinte: como justificar aquele marinheiro (nem me lembro mais o nome dele, tadinho) que entrava, cantava a primeira estrofe, não acertava uma nota e foi trazido de Porto Alegre, custou uma fortuna, quarto no Hotel Glória, transporte etc, quando temos no coro o excelente Ricardo Tuttman?

Tuttman (que já havia cantado comigo em Navio fantasma, em 1987) daria banhos nesse cara, mas está proibido de cantar!!!!!!!

Essa Garotinha faz business que nem o marido, o Garotinho. Que dupla da pesada! Quem estiver pensando em processar a Luz Produções por falta de pagamento, sugiro que vá ao Municipal tirar satisfações. Entenderam agora por que o Municipal não quer aparecer como produtor?

Voltando ao processo: os meus princípios, Sr. Juiz Amado, adorado, continuam os mesmos. É só colocar lá na sala do seu tribunal uma figura de papelão com a minha cara e repetir tudo aquilo que já está no seu computador. Cinco salários mínimos? Com prazer! Pago-os a instituições de caridade, a qualquer hora, mas quando EU decidir e não quando mandado por vocês. Isso porque mantenho a minha defesa igual àquela vez: não cometi crime algum. Expus a minha bunda num recinto alegórico chamado TEATRO. Será que a Garotinha quer discutir teatro comigo? Vamos voltar a Aristófanes? Commedia dell'arte, Goethe ou encenações contemporâneas (praticamente todas elas repletas de nudez ou até sexo explícito)? Primeiro, mande a Garotinha pagar à Luz Produções o que ela deve! Depois a gente discute o que é ou não é ato obsceno. Eu acho uma obscenidade não se pagar as camareiras e o pessoal da coleta de lixo do Theatro Municipal.

Logo no Rio de Janeiro! Que patética essa evangelice toda. Cuidado, gente. Isso pode ser o início de uma grande e grave ditadura.

Dryopera@aol.com

[16/SET/2003]

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