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Os excluídos do cassino especulativo


Li um pequeno livro fabuloso: A corrida para o século 21, do professor de História da Cultura da USP Nicolau Sevcenko. Em linguagem simples, em 131 páginas, é indispensável para entender o que está acontecendo neste início de século, ainda sofrendo os efeitos do neoliberalismo e do pensamento único, pragas capazes até de transformar a esperança suscitada pelo PT histórico na traição sem saída e covarde do neoPT.

O livro ajuda a entender por que os empregos são cada vez mais precários e raros, por que o patronato selvagem anda mostrando garras e dentes, sem qualquer pudor e receio, por que o capital especulativo goza de liberdade e poder de exploração equivalentes ao da acumulação primitiva, no início da Revolução Industrial, na parte final do século 18, e por que seus filhos vão - provavelmente - viver pior do que você, se você não se mexer.

Lembro-me da primeira vez que entrei na Bolsa de Futuros de Nova York. Ela funcionava num anexo do World Trade Center, destruído nos atentados do 11 de Setembro. No salão, imenso, repleto de monitores de TV - tendo ao centro uma ilha cheia de computadores e gente que se comunicava com os corretores aos gritos e através de linguagem digital de surdos-mudos - imperava um caos total, apenas aparente. O corretor que estava comigo disse: ''Quer ver o tempo que leva entre uma decisão e a efetivação de uma compra?''. Deu a ordem e foram necessários meros 16 segundos para que a tela de seu monitor confirmasse a operação. Isso, em 1983, há 21 anos! Em que velocidade funcionará o sistema hoje?

Sevcenko informa que todos os dias, num movimento non stop, o mercado financeiro mundial faz circular mais de US$ 1 trilhão (só sete países do mundo têm um PIB superior a essa cifra: EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e China). ''Cerca de 90% desse total nada tem a ver com investimentos reais em produção, comércio ou serviços, se concentrando no puro jogo especulativo'', diz o autor. Esse verdadeiro cassino que faz sangrar países como o Brasil, só foi possível devido ao progresso da informática e das comunicações, tornando praticamente obsoleto o dinheiro.

Essa transformação, que deu às grandes multinacionais um poder superior ao dos países, ocorreu à revelia dos Estados, enfraquecendo-os e acabando com um sistema que, no primeiro mundo, durou até os anos 70: o controle das economias nacionais, com a redistribuição de parte dos lucros dessas grandes corporações, financiando a criação do que se chamou de ''Estado de bem-estar social''.

Esse Estado começa a ser desmantelado no primeiro mundo, com maior ou menor intensidade nos anos 80. Assim, ao mesmo tempo em que aumenta, a renda se concentra. A economia da União Européia cresceu entre 50 e 75% nos últimos 20 anos, crescimento muito maior do que o de sua população (em geral estagnada ou em baixa). Mesmo assim, a Europa amarga 20 milhões de desempregados, 50 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza, e 5 milhões de sem-teto. Nos EUA a situação é ainda pior. Apenas 10% da população se apropriam de todo o crescimento econômico, enquanto a renda média e as poucas garantias sociais são sistematicamente desmanteladas.

Imaginem esse cenário em países com uma classe média sólida e história de lutas e conquistas sociais e transfiram-no para a nossa Pindorama, onde o que foi e está sendo desmantelado são pequenas conquistas sociais (sem mexer nos marajatos e privilégios). Passaremos assim, como disse certa vez Claude Lévy Strauss, ''da barbárie à decadência, sem jamais termos conhecido a civilização''. Tristes trópicos estes em que nos é dado viver! (Continua no domingo)

Pitecantropus campensis

Leio em O Globo uma reveladora entrevista da Aiatolinha, Rosinha Garotinho, na qual ela declara textualmente: ''Não acredito na evolução das espécies. Tudo isso é teoria''. Nossa fundamentalista, sem querer, explica, clara e cientificamente, o atual estado das coisas (pura calamidade!) que aflige o nosso Rio de Janeiro. Rosinha & Garotinho são espécimes que não evoluíram...

Um começo de despedida...

Fico com vocês neste espaço até o final do mês que vem e depois seguirei rumo a novos desafios. Nasci, vivi e cresci nesta casa. Ao todo foram 26 anos que valeram a pena. Dia 11 de maio estarei lançando o livro As noites da Fiorentina no restaurante do Leme, que viveu boa parte da história cultural carioca dos anos 50 aos anos 70. Vai ser na própria Fiorentina, a partir das 19h, e, pelo jeito, vai ser uma baita festa!


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[25/ABR/2004]


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