Vários leitores escreveram relatando coincidências e viagens no ''Raul Soares'', mas uma carta de uma sobrinha do comandante Wellington, Clara Emília Sanchez Monteiro de Barros Malhano, conta uma história incrível, que transforma o nosso personagem em verdadeiro herói. Adio a história de minha chegada ao Brasil para recuar no tempo e mostrar quem é o capitão de longo curso Wellington Geraldo de Barros, ''Barrinhos'', como é conhecido, carinhosamente, por familiares e amigos.
Quando nos encontramos pela primeira vez, o velho marinheiro, modesto, não fez qualquer referência a algo heróico ou extraordinário em suas navegações. Somente depois de saber o que a sobrinha contara é que concordou em falar. Os fatos - um pedaço importante da nossa História - ocorreram entre 15 e 19 de agosto de 1942 e foram decisivos para a entrada do Brasil na Segunda Guerra, em 31 de agosto do mesmo ano.
Os alemães já vinham atacando cargueiros brasileiros desde maio de 41, quando o mercante ''Taubaté'' foi metralhado por aviões da Luftwaffe no Mediterrâneo. Desde fevereiro de 42, os afundamentos de navios brasileiros por submarinos alemães sucederam-se, sem que o governo de Getúlio Vargas tomasse uma posição firme a respeito.
Até que no dia 15 de agosto, o navio ''Baependi'' foi torpedeado pelo U-507, matando 55 tripulantes e 235 passageiros. No mesmo dia, o mesmo submarino afundou o ''Araraquara'' e no dia seguinte torpedeou o navio de passageiros ''Aníbal Benévolo'', entre Salvador e Aracajú. Dia 17 foi a vez de outro navio de passageiros, o ''Itagiba'' e 48 horas depois, antes de voltar para a Alemanha, o U-507 afundou a barcaça ''Jacira''. Cinco navios destruídos covardemente. Em nenhum dos ataques foi dada a oportunidade aos tripulantes e passageiros de se salvarem nas baleeiras. Os navios viajavam iluminados, como em tempos de paz, ao longo da costa brasileira.
Só dois barcos escaparam à sanha assassina do U-507, o ''Bauru'', que no dia 15 já estava na barra da Bahia de Todos os Santos e fora do alcance do submarino e o ''Farrapo'', um cargueiro do Lóide que vinha de Salvador para o Rio de Janeiro. O ''Farrapo'' era comandado por um alemão, Frederich Runte, naturalizado brasileiro. Em alto mar, a tripulação ficou sabendo da destruição do ''Baependi''. Deixemos que o próprio comandante Wellington conte a história.
''Eu era imediato do 'Farrapo' e quando o Frederico percebeu o que estava acontecendo passou-me o comando do navio. 'Faça como você achar que deve fazer', foi a sua única instrução. Mandei apagar totalmente as luzes, um blecaute total, e o rádio foi desligado para não denunciar a nossa posição ao inimigo. Mudamos o curso e passamos a navegar obliquamente em direção à costa da África, saindo da rota habitual, onde o submarino esperava encontrar-nos''.
''Foram alguns dias e noites de angústia. A tripulação do 'Farrapo' chegou a ver no horizonte um clarão de explosão e incêndio, certamente uma vítima do submarino alemão. Navegamos assim até atingir o paralelo do Rio de Janeiro, quando aproamos em direção ao litoral. A essa altura, alguns jornais cariocas já haviam dado o 'Farrapo' como perdido e a sua chegada, são e salvo, ao porto foi um acontecimento e tanto. O cais estava cheio de jornalistas'', recorda o velho lobo do mar. As ruas do Rio já estavam tomadas por manifestações exigindo a guerra, lideradas pela UNE e contra a vontade do chefe da polícia Felinto Muller, simpático aos nazistas. Dez dias depois, o Brasil rompia com o Eixo e entrava no conflito ao lado dos aliados.
Sete anos depois, Wellington estava na ponte de comando do ''Raul Soares'', saindo da barra do Rio de Janeiro em direção a Santos. (Ele conta os fatos em sua casa, na Barra). ''Lembro-me que, ao sair da baía, o navio caturrou (balançou no sentido popa-proa e enfiou a proa na água). Uma onda varreu o convés, molhando todo mundo. Você não estaria lá com sua mãe?'', pergunta. Não me lembro. Ou não estava lá, ou não gravei na memória.
''O senhor sabe quando foi isso?''
''Não recordo bem a data, mas sei que zarpamos no mesmo dia em que o navio 'Magdalena', da Mala Real Inglesa, encalhou e afundou'', responde.
''Droga! O 'Magdalena'!'' O livro de Juiz de Fora! Lá está a data!'', penso, já lamentando não ter comprado o almanaque do ''Correio da Manhã'' de 1950, com o dia certo de minha chegada ao Brasil. ''Seria ainda possível tê-lo?'', interrogo-me angustiado, quase descontrolado. (Continua).