A cada dia que passa tenho a sensação de que quem votou no PT foram os argentinos. O presidente Kirchner assumiu um país que parecia ainda mais amarrado e atolado que o Brasil. Não havia saída para a situação da dívida e dos ''compromissos sagrados'' assumidos com os investidores, leia-se agiotas-especuladores, como quer nos convencer o neoPT de Luis Inácio da Silva, Palocci, Meirelles & companhia.
No exterior, o governo fala grosso e dá trânsito livre ao Itamaraty, que dos ministérios é - disparado - o que tem melhor visão do Brasil. Machuca quando contraria interesses poderosos, como ocorreu na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Cancún. Para os brasileiros existem dois governos, um para uso externo e outro interno, este totalmente amarrado a uma ortodoxia que o próprio FMI começa a jogar no lixo.
Kirchner, desde que assumiu, controlou o chamado 'capital motel' determinando que o dinheiro da especulação permanecesse pelo menos 180 dias no país, enquanto Palocci & Meirelles praticam uma política de ''tudo para conquistar a confiança do mercado''. O presidente argentino denunciou as mamatas das privatizações e se dispõe a auditá-las enquanto aqui socorremos o setor elétrico, privatizado com dinheiro público emprestado a empresas fraudulentas, e subsidiado com aumentos de tarifas escandalosos e com R$ 3 bilhões, ficando o prejuízo para nós, eternos otários e consumidores.
Aqui, aumentamos o superávit primário pedido pelo Fundo, aceitamos qualificar como gastos investimentos em setores como o saneamento e a educação e levamos o país à estagnação, com 13% de desemprego e igual queda média de salários, um triste recorde. As cassandras da ortodoxia neoliberal previam que se houvesse um calote o mundo desabaria. A Rússia já o fizera, o mundo não acabou e a economia vem crescendo consistentemente desde que Putin decidiu pagar de seu jeito. Tá bom, a Rússia tem bomba atômica e não valia a pena cutucar o urso.
A Argentina não tem bomba e mesmo assim os argentinos peitaram o FMI e o mundo continua aí. Em 24 horas obtiveram metas de superávit bem mais suaves que as nossas, desvinculação dos gastos sociais, que passam a ser vistos como investimentos e não despesa e até crédito. O Brasil e seu presidente comportaram-se como aquele amigo do Gardelon, personagem impagável do Jô Soares, lembram? ''Muy amiiigo.''
Agora, a Argentina se propõe a reestruturar sua dívida externa e diz-se disposta a pagar apenas 25% do total, considerando que o principal já foi pago pelos juros absurdos que os credores cobraram, ano após ano, nos últimos 20 anos. Por baixo, já pagamos pelo menos três vezes o que devemos e continuamos pagando serviços escorchantes das dívidas interna e externa sem abater o principal. Tem razão o Gardelon em sua proposta, e seria o momento de o Brasil alinhar-se com a posição argentina para obter condições mais justas que permitam retomar o crescimento e o investimento. Juntos, teríamos condições ímpares de negociar, mas a posição do Brasil neopetista continua pífia. Escolhemos, como não queria Tancredo Neves, ''pagar a dívida com o sangue e o pão do povo brasileiro''.
Kirchner acaba de anunciar a duplicação do orçamento para ciência e tecnologia em 2004. Os argentinos têm prêmios Nobel, inclusive em Ciência. A educação deles nos envergonha desde o século 19, quando o presidente Domingos Faustino Sarmiento realizou uma obra educacional semelhante à de Jules Ferry, na França, e ao mesmo tempo. A Argentina foi um dos países mais ricos (e instruídos) do mundo e só a partir do espaço entre as duas guerras mundiais, devido a uma sucessão de governos desastrosos, entrou numa espiral que a conduziu ao Terceiro Mundo. O correto seria trabalharmos juntos para sair do pântano sócio-econômico em que atolamos. Mas isso é tarefa para grandes almas e não para contadores e deslumbrados, como os que nos governam prometendo ''espetáculos de crescimento'' numa economia que não sai do zero. A Argentina crescerá 5% este ano.
PS 1 - Exaltação à tortura: o coronel Fernando Príncipe, comandante do BOPE, foi mentiroso e cínico ao acusar um morador do Parque Guinle que denunciou a corporação por fazer a apologia da tortura em seus cantos de instrução de ter ''deturpado as letras porque devia estar em estado de sonolência''. Há meses denunciei, aqui nesta mesma coluna, essa prática sinistra do BOPE de exaltar a tortura em seus cantos, exatamente a mesma letra que agora saiu em O Globo. Moro no Parque Guinle, sou vizinho do secretário de Segurança e da governadora, e acho absurdo assistir a esse crime diariamente sob nossas janelas. O que esperar de tal polícia?
PS 2 - E os transgênicos, hein? Nem a Marina emplaca neste governo. A Monsanto ganhou, pagamos royalties por sementes e não sabemos direito o que estamos comprando.