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Em busca do tempo roubado


Já houve dignidade na pobreza e há quem jure que a burguesia também ganhará sua cota. Hoje, quis um tempo mau que a burguesia perdesse suas impressões faciais e que a necessidade marcasse o rosto dos humilhados, obrigando-os a recitar a ladainha ignóbil do poder. Verifico isso nas cenas mais banais. Na mocinha, antigamente tão orgulhosa de ser stewardess e que hoje não pode evitar olheiras e varizes que a tornam apenas uma garçonete do ar, louca para deixar o emprego assim que o marido arranje um. Vejo decepção e angústia nos olhos da professorinha que, altiva, um dia dividiu as despesas da casa com o companheiro, mas que hoje não pode pagar o dentista. Ai das feias, coitadinhas, proibidas de qualquer contato com o público consumidor, uma vez que as pobres bonitas estão disputando a tapa um lugar de caixa de banco. E existem os inspetores, supervisores, delatores apontando para a guilhotina da demissão. Quando isso acontece, elas se tornam prisioneiras da nossa Justiça tarda, falha e injusta.

Pensava nisso tudo no avião que me levaria a São Paulo, onde tomaria um táxi para o Hotel Mufarrej, em cujo salão nos apertávamos mais de 700 burgueses - eu de correspondente - enquanto empurrávamos com os pés as nossas bagagens em diversas filas. Ao mesmo tempo, brigávamos pela água, cafezinho e bolachas, quase sempre fora do nosso alcance, pois tínhamos de vigiar as malditas malas. Ao fim de duas horas de tortura, entramos num ônibus que nos conduziria ao Porto de Santos. Começa a viagem, um rapaz culto e afetado brindou-nos com informações sobre os pontos turísticos de São Paulo, mas não deu esclarecimento algum sobre nossa viagem ao fim do mundo a bordo do Blue Dream - quase 12 mil quilômetros de ida e volta a Santos.

Não sei se por atávico complexo de culpa em relação ao proletariado ou por complexo de inferioridade atávico em relação à aristocracia, a burguesia não reclama desde a Revolução Francesa. Tangidos como bois, chegamos à Polícia Federal, onde deixamos os passaportes sob o comando do Blue Dream, que nos entregaria na volta. Embarcamos no navio: passageiros e tripulantes, estes num total de quase 250 brasileiros, quase 80 filipinos e, em ordem decrescente, hondurenhos, colombianos, peruanos, chilenos, argentinos, búlgaros, um cubano (que vive em Cuba) e um alemão, o chefe de cozinha, que deve ter feito mestrado na Ilha do Diabo. As moças e rapazes contratados pela Pulman Tours são belos, gentis e eficientes. Já os contratados pela CBV parecem marionetes e não entendem nada além daquilo que lhes foi introduzido no cérebro. Esses jovens trabalham 11 horas por dia por um salário que não teriam em terra e economizam para a faculdade.

Eu e minha mulher trouxemos pouco menos de US$ 700 em dinheiro, pois pretendíamos pagar tudo com cartão de crédito. Ela com seu Visa Bradesco e eu com meu Diners, o único que mantenho há 15 anos por razões sentimentais. O navio não aceitava Diners e o Visa da minha mulher, que era internacional, na hora da renovação voltara como nacional sem que ela notasse. Conseguimos entrar em contato com o Bradesco, sempre tão gentil na TV e que agora, gentilmente, nos informava que não havia nada a fazer.

Passei o domingo tentando falar com as atendentes do Diners no Rio. Depois de horas, informaram-me que poderia pegar US$ 2 mil em Punta del Este, onde atracaríamos no dia seguinte. E receber na boca do caixa do City Bank. A agência só abria às quatro e zarparíamos às seis. Por via das dúvidas, fui ao Cassino Hotel Conrad, onde ganhei US$ 300 e fiz a melhor refeição de uma viagem de três semanas: queijo francês e presunto de Parma. A situação no Uruguai não vai bem, me informou um taxista: ''Colorados, blancos, isquierda, todos la misma mierda''. Dava para ver. Fevereiro, ruas e praças desertas. Às quatro, estava na boca do caixa e a boca da moça mal-humorada se abriu qual um dragão.

- Não estamos autorizados. (Graças às taxas exorbitantes do navio, minha ligação para o Diners custou mais de US$ 120? Vocês sabiam que o City é do Diners?)

O gerente me informou que poderiam me dar o dinheiro em Montevidéu, a 160km, mas não havia como ir à capital e voltar a tempo de pegar o navio. Por que a agência de Montevidéu podia pagar e a de Punta del Este não é um mistério. Eu e minha mulher teríamos de enfrentar a viagem com os poucos dólares que trouxéramos e os que pretendia ganhar no Cassino do navio. Este sim era conduzido por funcionários competentes, graças ao meu conhecimento das antigas mumunhas do 21. Minha viagem ao fim do mundo começou na ante-sala do inferno. Pioraria depois, como vocês verão no próximo artigo.

  • Fausto Wolff escreve às terças, quintas e domingos


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    [28/FEV/2006]


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