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O adeus às criancinhas

As denúncias de pedofilia percorrem as nervuras da Igreja Católica feito um um tremor. Em todo lugar surge uma história nova, feia, que vem se somar às outras já conhecidas. Os casos não param de pipocar. A imprensa noticia todos - e a Igreja se contorce. Parece que de dor. Os bispos já não têm como acobertar seus subordinados. O Papa já não pode se manter indiferente e condena publicamente os pedófilos de batina. É uma voragem. O que seria apenas objeto de uma cobertura jornalística sobre crimes cometidos por religiosos ganha proporções épico-demoníaco-pornográficas: já não são simplesmente histórias de padres que agiram mal e que merecem punição; é um fenômeno que atinge dimensões monstruosamente maiores, um desmoronamento difícil de conter, uma avalanche sob o sol, um bueiro que entra em erupção bem em frente à escadaria da matriz.

O que primeiro chama a atenção no inferno pelo qual o Vaticano vem passando é o descompasso entre a objetividade de cada notícia, ou pelo menos da maioria das notícias, e a histeria que se nota quando se olha o conjunto da repercussão do assunto. A maioria das reportagens sobre o tema se pauta pela racionalidade - relatam objetivamente acontecimentos reais, quase sempre reconhecidos pelos envolvidos - mas o clima geral tem laivos de irracionalismo; as partes sadias formam um conjunto demente, assim como a multidão ensandecida pode se compor exclusivamente de indivíduos racionais. Em resumo: reportagens equilibradas, se consideradas individualmente, estão produzindo um espetáculo enlouquecido.

O ombudsman da Folha de S. Paulo, Bernardo Ajzemberg, na sua coluna de domingo passado, anotou elementos dessa contradição sem se deter sobre ela. Primeiro, constatou: ''Nenhum pecado mortal contra a Igreja Católica foi cometido pela imprensa nos últimos dias, a meu ver, na cobertura sobre os religiosos pedófilos e seus eventuais acobertadores.'' Depois, observou: ''Não quer dizer que a mídia tenha dado ao delicado tema a cobertura mais exemplar. Ao contrário, mesclando indevidamente aspectos diversos que o tangenciam, acabou formando uma onda que por pouco não atingiu o patamar de campanha aberta contra a Igreja ou alguns de seus princípios.''

Em jornais e revistas de todo o mundo e, também, em programas de televisão, desde os mais sóbrios até os mais gritalhões, a pedofilia católica, mais que notícia jornalística, tornou-se um hit do entretenimento. Audiência garantida. A mídia está em transe. Mas não nos esqueçamos, eu insisto: nas reportagens, o que se tem é que um determinado sacerdote molestou um garoto, que um certo superior o teria protegido, que uma jovem está grávida de um sacerdote. Casos isolados, portanto. Todo mundo sabe que não são todos os clérigos que estão por aí molestando a infância global. São alguns. Todo mundo sabe também que abusos sexuais são cometidos por gente de todas as profissões, médicos, jornalistas, lixeiros. O noticiário, visto em suas partes, dá conta de acontecimentos específicos. É no conjunto que se nota a doideira. Estamos diante do irracional que se alimenta de fragmentos verídicos. Alimentada de verdades factuais, a mídia arqueia seus tentáculos em frêmitos de paixões.

Isso tudo por quê? De onde vem essa histeria, essa possessão, de onde vêm esses frêmitos? Alguém premeditou uma campanha difamatória contra a Santa Sé? Ora, não sejamos simplórios. A Igreja não vem sendo propriamente uma vítima indefesa dos poderosos donos da mídia. O que acontece é que a mídia - esse ruidoso e explosivo congestionamento de meios de comunicação obcecados por tudo o que seja sensacional, espetacular, erótico e violento - é escrava do desejo inconsciente do sujeito contemporâneo, ou seja, do desejo inconsciente de cada um de nós. Eis aqui a força que move a mídia. O que a move não é o maquiavelismo consciente dos seus donos, mas do desejo inconsciente, isto sim, inconsciente e sempre negado. Assim como cada um dos padres pedófilos se esconde atrás de um hábito, ou de uma auto-imagem, ocultando de si mesmo suas taras abomináveis para deixá-las vazar na escuridão, a massa se esconde atrás do circo da mídia, como se fosse massa inocente, para saborear cada versículo picante dos delitos desses padres. A mídia é assim: a encenação para todos do show que cada um, individualmente, não teria coragem de pedir. A mídia é assim: o trabalho de cada jornalista, mesmo que honesto, transformado em festim delirante. Sexo e violência movem o espetáculo? Claro, pois são as pulsões básicas, inconscientes, que também impulsionam os mortais perdidos, sejam eles sacristãos, filósofos ou carteiros. É inconfessável, mas ver esses padres expostos à crueldade tirânica de seus desejos é um prazer digno dos deuses pagãos. Para isso serve a mídia. Para nos entorpecer de prazeres como se fôssemos deuses e também como se fôssemos pagãos. É isso que dá à narrativa dos escândalos sexuais dos padres o andamento de um gozo intenso.

O rei só não está nu porque de reis andamos em falta, mas o padre da esquina está bem ali, olha só, nuzinho. A Santa Madre Igreja, também, está quase nua. Quanto ao católico anônimo, comum, este agora está dividido entre o prazer pecaminoso de fantasiar cenas de sexo no confessionário e o perigo imenso de mandar os filhos para o catecismo. É o apocalipse: a um filme do Schwarzenegger qualquer molequinho pode assistir, mas a sacristia pode já não ser recomendável para menores de 16 anos. A Igreja Católica, já esvaziada de adultos, corre como nunca o risco de esvaziar-se de crianças.

[02/MAI/2002]

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