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A paz e os pesos da consciência

A leveza é uma das propostas de Italo Calvino para o novo milênio, ou melhor, é uma das suas Seis propostas para o próximo milênio, livro que foi publicado no Brasil já faz um tempo, faz muito tempo, ele foi publicado ainda no milênio passado. Saiu aqui em 1990, cinco anos após a morte de seu autor. É um livro antigão, você dirá, e eu não vou me abalar. Diante da leveza, o tempo não conta tanto assim.

Por que penso na leveza? Não penso nela a partir de Calvino, mas a partir do peso, do peso enorme que todos trazemos na consciência. E também a partir do peso das tradições, que sobrecarregam como catedrais de pedras os ombros da gente. O peso da consciência vem da suspeita de alguém sobre si mesmo, a suspeita de ter traído uma tradição (traição e tradição costumam ser palavras perigosamente próximas). Então penso na leveza, porque só ela pode anular o peso que nos torna seres rastejantes de puro rancor, o peso da culpa.

Milan Kundera escreveu um romance sobre o tema, A insustentável leveza do ser. Embora aquele fosse um livro cujas concessões ao gosto médio do público lhe renderam uma reputação de quase brega, guardo dele uma boa lição, quase leve: a de que a liberdade requer uma pitada de infidelidade às catedrais, ou seja, para voar é preciso desertar ao menos um pouco das tradições. Voar, aí, é algo que acontece a alguém não por desejo ou proeza, mas por mero despojamento ou emancipação; o sujeito levita porque renuncia ao peso - não de seu corpo, mas de sua consciência. Segundo Kundera, o estado natural do ser não é sua massa, sua matéria, mas o oposto disso: é sua leveza, essa antiforça insustentável. É só pelos compromissos do dever que os personagens de Kundera ficam atados ao chão - o chão da tirania stalinista, ou pós-stalinista, o chão do velho Leste europeu, o chão do casamento, das formas sociais da existência institucional de cada um ou de cada dois.

Os compromissos do dever, assim postos, fazem alusão a uma outra imagem, esta bastante concreta, e bastante datada, que são as cordas que prendiam os balões dirigíveis ao solo das grandes cidades em que eles faziam escala. Um dirigível, monumental e flutuante, parece um personagem de Milan Kundera. É uma figura de sonho. Para um dirigível, voar era o estado natural. Bastava que estivesse desamarrado e, pronto, o dirigível voava. Era preciso mais esforço para mantê-lo em terra do que no ar. Não surpreende que a leveza tenha sido um tema amplo e aéreo, uma utopia óbvia, ainda que poética, a atravessar todo o século 20. Ela habitou as pranchetas dos engenheiros, a arquitetura de Niemeyer e as escrivaninhas de escritores. A leveza pode ser uma grande tolice mas, para Italo Calvino, era uma das propostas para o futuro. Ao menos para o futuro da literatura.

Mas é do peso, e não da leveza, que preciso falar. Lembro que o peso na literatura e, de um modo geral, em toda a arte, rendeu patologias comprovadas como o realismo socialista, a estética oficial do stalinismo, o totalitarismo de esquerda. O peso era justamente aquilo que punha rédeas na criação artística, era a doutrina. A arte passava a bater continência para uma deformidade chamada ideologia de Estado, ou do partido. Isso é peso. Contra esse peso da ideologia de Estado a própria esquerda se insurgiu, com o surrealismo à frente, e alguns surrealistas de fato conseguiram alçar vôo. Assim é que a metáfora do vôo tornou-se uma presença banal em nossa parca modernidade. O vôo é o signo do desejo nos sonhos freudianos, o signo de potência no Super-Homem do gibi, o signo da infância em Peter Pan, o signo do gozo do consumidor na propaganda do novo Windows na TV, a propaganda do Bill Gates. Quanta banalidade.

Mesmo assim, a leveza pode ser pensada como proposta para o milênio. Não só para a literatura, mas para a vida em sentido amplo. Só agora chego ao que eu queria ter dito desde o início. A leveza pode nos servir de proposta porque ela tem parte com a paz e a paz é a única passagem que resta para que a civilização prossiga o seu caminho. Mal sabemos que caminho é esse, mas já dá para saber que, sem a paz, essa aspiração indefinível, a gente vai se estourar. Juntos, somos mais que um homem-bomba: somos um planeta-bomba. Imagino que a paz só se tece a partir dos fios que se despregam do passado, quero dizer, é preciso que alguém traia minimamente uma tradição para, junto com mais alguém, que também traiu a sua, costurar uma nova tradição. É preciso deixar-se flutuar. Sim, eu sei que você dirá, e dirá com razão, que essa conversa toda de paz acaba ficando muito parecida com a propaganda do Bill Gates. Não sei o que responder. Só sei que presumir-se portador da verdade é um peso descomunal. Supor-se vingador dos mortos é outro. Ser dono de fortunas incomensuráveis, como a do Bill Gates, é um peso violento e nefasto. Estamos falando em paz e, falando em paz, é pertinente uma frase de Ghandi, o pacifista: ''Todo aquele que tem coisas das quais não precisa é um ladrão''. Ser um ladrão desse tipo é um peso. A lógica pura do mercado é um peso. A lógica pura do Estado armado é outro. Todos pesos contrários à paz. Só sei que a leveza faz sentido para o milênio que está começando agora.

A questão é que eu não sei bem que leveza é essa. E eu que queria escrever um artigo sobre a guerra na Palestina fui errar a mão desse jeito. Penso nas coisas todas que eu fiz movido pela culpa e em todas as coisas que deixei de fazer impedido pelo peso da minha consciência. Daí eu penso nas guerras, no ódio, no rancor. Que bobagem. Deixa pra lá, escrevi apenas palavras pesadas demais.

[11/ABR/2002]

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