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A bandeira do MST vai à Palestina

Yasser Arafat estava ilhado em seu QG na cidade de Ramala, na Cisjordânia, cercado pelos tanques de Ariel Sharon por todos os lados, e mesmo assim o MST conseguiu chegar até ele. Inacreditável. Na segunda-feira, o Brasil acordou com Arafat sorrindo na capa dos grandes jornais. Sorrindo e segurando a bandeira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Segurava-a com as duas mãos, como quem se prepara para estender a colcha sobre a cama, ou a toalha sobre a mesa. Ou como quem mostra um presente aos amigos. Ou, sejamos exatos, como quem mostra uma causa política para o mundo inteiro. Que imagem impressionante: Yasser Arafat promovendo a causa dos sem-terra brasileiros! Isso sim é agitação e propaganda. Nem o Green Peace faria melhor. Não há limites geográficos para a capacidade do MST de produzir imagens sensacionais.

Na segunda-feira à noite, o Jornal da Record, de Boris Casoy, pôs no ar uma boa reportagem sobre a ida do agricultor gaúcho Mário Lill, da coordenação nacional do MST, ao Oriente Médio. A história começa no primeiro Fórum Mundial Social de Porto Alegre, realizado no ano passado, passa pelo contato com o barulhento camponês francês José Bové e daí desemboca na causa palestina. Bové estava com Mário Lill na delegação internacional que atravessou trincheiras até Ramala. A mulher de Mário Lill, Irene Manfio, que ficou por aqui, foi entrevistada pelas câmeras da Record. Respondeu às perguntas enquanto amamentava o filho do casal e foi firme ao declarar apoio à viagem do marido e à luta de Arafat. Ao final da reportagem, Casoy fez o seu comentário personalíssimo, sua marca registrada. Nesse caso, foi um comentário irônico, embora respeitoso. Ele não disse que o episódio era ''uma vergonha'', longe disso. Apenas brincou, insinuando que talvez os militantes brasileiros pretendessem fazer uma reforma agrária no Oriente Médio. Encerrou sua nota com aquele risinho seco, ultra-rápido e silencioso, emoldurado por um leve balançar de cabeça, com os olhos voltados para baixo.

Piadinhas à parte, o MST não foi até lá para fazer reforma agrária, mas para dizer de que lado está nessa guerra, um conflito diante do qual ninguém no planeta parece conseguir se manter neutro - mas ninguém consegue também assumir uma posição sem titubear. O MST foi lá dizer que apóia os palestinos. Pronto. Na lata. E também foi lá fazer divulgação de si mesmo. O internacionalismo do MST é marcado pela imagem de alto impacto e pela extrema consciência do modus operandi da mídia, que só é sensível às imagens espetaculares. Estamos diante de um internacionalismo-espetáculo ou, mais ainda, de um internacionalismo-espetáculo de esquerda. É espantoso. Esses conceitos, internacionalismo de esquerda e espetáculo, designam idéias antagônicas. Se há alguma coisa que o internacionalismo de esquerda deveria combater é justamente o espetáculo, ou seja, a indústria do entretenimento, a linguagem publicitária corroendo o pensamento, a redução da política a truques de marketing, a transformação das notícias mais trágicas em videoclipe, o esvaziamento em todos os sentidos. Mas não, o MST é ele mesmo um espetáculo sui generis.

O MST é um exímio fabricante de imagens polêmicas. Antes dessa, do Arafat, foi aquela imagem em que os militantes apareciam estirados nos sofás e nas poltronas da sala de visitas da fazenda dos filhos de FHC. Foi um choque. A visão daquela ocupação deseducada irritou até mesmo a alta cúpula do Partido dos Trabalhadores, que a desaprovou, alegando, com razão, que uma fazenda produtiva não deveria ser alvo do movimento. Alguns dirigentes de esquerda chegaram a temer que a foto da sala invadida representasse para a campanha de Lula o que a foto da montanha de notas de R$ 50 representou para a campanha de Roseana: um tiro fatal. Temeram indevidamente. Não houve maiores estragos. Imagem por imagem, a cena da sala tomada foi neutralizada pela cena seguinte, a dos invasores algemados, deitados de rosto contra o capim, imobilizados como bichos. Imagem por imagem, a violência da sala invadida foi anulada pela violência com que foram presos os trabalhadores. A campanha de Lula segue ilesa e a reforma agrária continuou na primeira página dos jornais. Ponto para o MST.

Para a estratégia do MST, parece secundário saber se suas imagens são ''positivas'' ou ''negativas''. É como se essa história de ''positivo'' ou ''negativo'' fosse um atributo menor, conjuntural, coisa que muda com o vento, o que não deixa de ser verdade. Não dá para saber se essa é uma estratégia inteiramente planejada - creio que não é -, mas é uma estratégia compreensível, provavelmente instintiva. Durante décadas, a luta pela terra no Brasil foi condenada à escuridão pela imprensa brasileira. Foi só depois de uma novela, O rei do gado, de 1996, que o assunto entrou para a sala de visitas (sempre elas, as salas de visitas) das famílias brasileiras e, por aí, entrou para a agenda nacional. Desde então, a reforma agrária não sai mais das manchetes. Os trabalhadores sem-terra aprenderam, na base do sofrimento e da exclusão, que não se faz política sem visibilidade. Aprenderam que, sem visibilidade, não se tem cidadania. Sem visibilidade, ninguém conquista terra nenhuma. Nem no Brasil nem no Oriente Médio. Agora, o MST conseguiu que Arafat posasse de seu garoto-propaganda. Uma proeza. Não sei se isso é bom para Arafat, que também depende de visibilidade, mas certamente é bom para os sem-terra e melhor ainda para ajudar a apressar a reforma agrária no Brasil. E esta, a reforma agrária, quando acontecer de fato, penso que será boa para o país inteiro.

[04/ABR/2002]

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