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Os que matam em nome do Pai

Na terça-feira, o terrorista saudita Osama Bin Laden foi dado como vivo. Um meio-irmão dele, o xeque Ahmad, declarou à rede americana CNN que Bin Laden passa bem, obrigado, e que ele não tem doença nenhuma nos rins nem precisa de diálises periódicas. Bin Laden vive. A crer no xeque Ahmad, a colossal operação de George W. Bush para matar o homem foi um furo nágua, ou melhor, um furo, ou, melhor ainda, milhões de furos a mais nas cavernas desérticas do Afeganistão.

Há, de saída, um apelo cômico na patética revelação do xeque. O anúncio de que Bin Laden não morreu soa como um slogan pop-místico, algo como ''Elvis não morreu''. Fora isso, parece pirraça. Depois de todas as toneladas de bombas, a idéia de um Bin Laden ileso lembra aqueles personagens minúsculos de desenho animado, muito americanos, por sinal, que sempre escapam das estratégias mortíferas de seus algozes, muito maiores, mais fortes e mais armados que eles. Bin Laden é como o rato Jerry, como o Piu-Piu. Bin Laden não morreu. Pense-se na cara do presidente W. Bush ao saber das palavras do xeque Ahmad, pense-se na expressão de sua face tão carente de expressões e se terá uma idéia do que há de cômico no episódio. Fazer o quê? Rir?

Fora a comédia irrisória, a coisa é alarmante. A guerra santa da novíssima ordem mundial irá prosseguir? Mais bombardeios, mais atentados, mais devastações? A pergunta é razoável, uma vez que os pólos em combate seguem intactos, inabaláveis. De um lado, está o homem que jura matar todos os infiéis ocidentais, ou seja, nós aqui, com preferência para os que falam inglês. De outro, o presidente W. Bush, que quer o terrorista ''vivo ou morto'', que quer fazer justiça com os próprios tanques, que quer varrer o mal da face empoeirada e minada dos países a que despreza. O primeiro mata em nome de Alá, o segundo mata em nome do ''bem'' (''é o bem contra o mal'', ele diz) e, claro, em nome do dinheiro, ou seja, mata em nome do regime de livre mercado que nada mais é que o regime do dinheiro. W. Bush é um fanático do mercado.

Os monstros que se enfrentam se espelham e, como pólos opostos que são, também se equivalem. No fundo do antagonismo entre ambos, há a doença ética que assumiu proporções talvez insuperáveis. Essa doença é a morte e a destruição que se perpetram contra inocentes em nome de Deus, seja esse Deus Alá ou seja ele o Deus do dinheiro.

Dostoiévski, numa frase célebre de Crime e castigo, disse que ''se Deus não existe tudo é permitido''. Quer dizer: se não há o Deus do juízo final, tudo pode ser feito, qualquer deslize, qualquer atrocidade. Se você quer roubar, mentir, trair, matar, e está seguro de que a chamada ''justiça dos homens'' não perceberá nada e se, de quebra, tem certeza de que Deus não existe, pode ir em frente: o seu crime será coroado de compensações. Claro que em Dostoiévski a coisa toda não é tão simples, mas na cabeça da maioria de nós, mortais normais, ela é exatamente assim, bem simplória. O que é que segura um cidadão na hora de cometer um ato ilícito, uma imoralidade, um pecadilho no instante em que ninguém o vê? Quase sempre, o que o segura é a consciência, ainda que mal resolvida, de algum tipo de justiça que tenha alcances para além daquilo que ele controla. De preferência, para além da sua própria morte. ''Papai do Céu castiga'', ele pensa sem saber que pensa. A figura do pai severo e atento está introjetada em cada um de nós, não tem jeito. Na hora de adotar a conduta inconfessável, o sujeito treme. Daí essa idéia aparentemente óbvia: se Deus não existisse, todos nós cometeríamos as piores barbaridades.

Mas como entender as barbaridades que se praticam não apesar de Deus, mas precisamente em nome de Deus? Diante dos atos de Bin Laden, qualquer um de nós é levado a concluir que o problema é exatamente o contrário: é justamente porque Deus existe que tudo é permitido. Não que Dostoiévski estivesse errado, é apenas um jeito avesso de pensar a relação entre Deus e ética (esse jeito avesso de pensar é possível, em grande parte, graças à teoria psicanalítica de Jacques Lacan). As guerras religiosas e os terroristas em estado de possessão representam a mais perfeita expressão de que a figura de Deus, tal como ela é posta pelo fanatismo, não ajuda a conter, mas contribui para exacerbar a intolerância e o ódio religioso, sentimentos que negam, no seu fundamento, a própria noção de ética. Esse Deus não dá suporte à ética: ele anula a ética. O motivo é elementar. Ética tem a ver com a convivência entre os diferentes, lida com o diálogo e com a negociação de expectativas. A intolerância e o ódio religioso buscam suprimir a diferença. Buscam suprimi-la com uma carga tão brutal de violência que necessitam de uma autorização sobre-humana para poder agir: precisam da impunidade que só pode vir de Deus. Não fosse o Deus fanatizado e tais condutas jamais seriam permitidas. Não fosse Alá (para Bin Laden) ou o ''bem contra o mal'', o bem absoluto (para Bush), tanta violência não seria sequer pensável.

Num artigo publicado no domingo na Folha de S. Paulo, em que tratava das guerras religiosas na Índia, Salman Rushdie afirmou: ''O nome do problema é Deus''. Na verdade, esse Deus não é um problema apenas indiano. É um problema global. Bin Laden vive, como Elvis ou mais que Elvis, vive como provocação. Eu me vejo alarmado. Isso depois de rir um pouco, de rir sem jeito, fico aprisionado por uma interrogação: esses caras e seus Deuses estranguladores, onde e quando eles vão parar?

[21/MAR/2002]

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