Mas isso é uma
drag queen?
Você vai ver só. É o que você vai perguntar quando o primeiro elfo aparecer em cena no longa, bem longa metragem chamado O senhor dos anéis - A sociedade do anel, que estréia agora junto com o ano de 2002. Aquilo é uma drag queen. Um esclarecimento prévio: elfos são uma espécie de gente que não é gente, eles têm uma garbosa aparência humana e, a despeito de tal aparência, não são humanos, não ficam doentes, nem envelhecem e também não morrem de morte natural. Só de morte matada. Na intrincada, complexa e ultraminuciosa mitologia inventada pelo escritor J. R. R. Tolkien, descrita na sua trilogia clássica, os elfos vivem milhares de anos. Sempre com aquele ar de drag queen, sempre com seus olhares de meia taça, como certos sutiãs, as duas íris em poente. Elfos têm o corpo delgado, tiram sobrancelhas e passam pó de arroz. Não nos livros de Tolkien, por certo, mas sem dúvida são assim na adaptação cinematográfica. Drags.
Leio no folheto de divulgação do filme que, quando o primeiro volume da trilogia de Tolkien apareceu, em 1954, alguém escreveu que o mundo estaria então dividido em duas metades: os que leram O senhor dos anéis e os que ainda vão ler. Ah, desalento. Também nessa divisão da humanidade eu sou um excluído, não fico nem de um lado nem de outro. Ou talvez eu não seja humano. Sou assim um elfo sobrancelhudo sem pó de arroz. Um elfo que, não obstante, envelhece e fica doente. Sei de humanos que idolatram Tolkien e suas criaturas incríveis. Sei de alguns que falam o idioma élfico, uma língua criada por Tolkien para seus personagens (!). O élfico é uma língua viva. E mais: eu sei de humanos que se fantasiam de elfos. Em ocasiões especiais, como agora, nas sessões de pré-estréia do tão aguardado looonga-metragem, esses humanos se agrupam devidamente paramentados e exultam em seus trajes, como se tomassem parte de uma procissão, ou de uma celebração mística, ou de tudo isso junto e mais um pouco. Uns viram elfos, outros encarnam hobbits, outros são orcs e por aí vamos nós.
A democracia é mesmo um caleidoscópio alucinógeno. Penso em Jornada nas estrelas. Existem mais pessoas no mundo que se fantasiam de Dr. Spock do que os infelizardos que já vestiram um smoking. Há outros que se caracterizam de Elvis Presley, mania que foi inaugurada pelo próprio. Love me tender. Os pensadores que enxergavam um ''reino da liberdade'' para o futuro, um mundo de fartura e de prazer, imaginavam que o planeta seria povoado de seres (humanos) cuja energia não seria mais tragada pelo trabalho, essa coisa chata, mas pelo deleite. A humanidade do futuro não se dividiria mais pela propriedade ou não dos meios de produção, mas pelos gostos de cada um. Não seria mais segregada pelas nacionalidades e nem pelos exércitos, nem tampouco pelo critério sufocante de quem já leu versus quem vai ler as ficções de Tolkien; seria uma federação infinita de confrarias dedicadas a predileções gozosas. O paraíso seria assim formado de agrupamentos como os colecionadores de selo, os criadores de canário, os torcedores do Fluminense, os bebedores de Santo Daime, os leitores de Euclides da Cunha, os imitadores de Madonna, os (as) drag queens, os que se fantasiam de elfos em salas de espera dos cinemas acarpetados. Livre dos imperativos da necessidade, a humanidade se dedicaria ao que interessa: nada.
O trabalho é a morte, né não? ''Os homens trabalham por equívoco'', escreveu Henry David Thoreau, autor de Walden, uma utopia datada (nos dois sentidos) de 1854. ''A melhor parte do homem não tarda a mergulhar no solo para servir de adubo.'' Não que eu me lembre de cabeça de passagens de Thoreau, nem que eu tenha trabalhado muito para recuperá-las; pesquei umas frases na internet e me dei por satisfeito. O repúdio ao trabalho, ao produtivismo, é um sinal de saúde já clássico e, vez por outra, esse sinal conta com a minha simpatia. Quero mudar de assunto. Folheio Paul Lafargue, genro de Karl Marx, e releio ao léu seu famoso O direito à preguiça. Está ali a ironia contra os trabalhadores franceses que se orgulham da conquista da jornada de oito horas, quando disso deveriam se envergonhar. O direito à preguiça é uma glória, mas me dá preguiça e eu o deixo de lado. Robert Owen e seu ''novo paraíso'' que me socorram - eu quero viver de brisa, das brisas da Terra Média, o lugar fictício habitado pelas espécies de Tolkien. Charles Fourier que me redima - eu quero viver sonhando, sonhando com o passado, o passado ancestral que me espreita enquanto vejo O senhor dos anéis.
O que os pensadores utópicos vislumbravam era um cenário de paz e prosperidade, em que o básico estaria resolvido, deixando assim espaço para as artes e para os passatempos excêntricos: fantasiar-se de drag queen ou de Dr. Spock ou falar élfico. Aconteceu que a História não ultrapassou, nem de longe, a barreira que separa o reino da necessidade do reino da liberdade. Aconteceu que ainda há gente que morre de fome, de sede e de abandono. Aconteceu que as distinções de classes não foram extintas, mas se tornaram intransponíveis. Aconteceu que a política não se tornou desnecessária, mas mortalmente enfadonha. E não foi pela vitória sobre a provação, mas pelo desencanto diante dos modos de superá-la, que os que sobrevivem se dedicam ao divertimento e nada mais. As utopias, ou elas são o presente, ou elas são compráveis no shopping center, ou elas não existem mais.
E, no entanto, O senhor dos anéis é um filme lindo, tão intenso quanto os mitos e os arquétipos. E, no entanto, eu vou me fantasiar de mago.