Para Oscar Niemeyer
Não porque tenha desembocado neste começo de século desalentador, devemos colocar a culpa no século 20. Surge uma tendência a caracterizá-lo como um século de derrotas. Não foi assim. Ao contrário, foi o principal século, até aqui, no avanço das lutas pela emancipação humana.
Já nem falo nos avanços materiais, mas que certamente contam muito. Interpelado sobre a maior conquista do século passado, Umberto Eco não pestanejou: as vacinas. E exemplificou: seu avô e seu pai viveram 40 anos, enquanto ele já tinha passado bem dos 80, em perfeito estado físico e mental.
Hobsbawn destaca a ''revolução educacional'', que generalizou a capacidade de acesso à leitura. Antes, nenhuma ilusão: a grande maioria dos franceses da época de Balzac, não poderiam lê-lo. O mesmo acontecia com Goethe na Alemanha, com Dante na Itália, com Shakespeare na Inglaterra. O mesmo que ainda acontece com os brasileiros, que não tem oportunidade de ler a Machado de Assis, a Drummond e a Guimarães Rosa. Mas mesmo aqui, avançamos bastante no século 20.
Se nos ativermos aos grandes fenômenos históricos, teremos a primeira vez que um movimento de operários e camponeses tomou o poder, na Rússia de 1917. Aqui mesmo, tivemos a belíssima revolução mexicana, de Zapata e Pancho Villa.
Nenhum orgulho pelas duas guerras mundiais que representaram o maior massacre do século 20 - incluído o holocausto alemão -, na disputa das grandes potências pela redivisão do mundo entre elas. Tampouco, pela vitória franquista na revolução espanhola, pela ascensão de Mussolini na Itália e de Salazar em Portugal. Mas essas forças foram derrotadas e no marco dessa guerra se deu uma das mais belas gestas do século 20 - a resistência do povo soviético à tentativa de invasão nazista, que praticamente fez recair a balança para um dos lados e decidiu o desfecho da guerra.
Logo depois, a revolução chinesa, desembocando na formidável longa marcha de Mao-Tse-Tung, derrotando aos japoneses e aos norte-americanos, abriu novos horizontes para o país mais populoso do mundo. Mas a gesta que mais marcou o século, pela gigantesca capacidade de resistência de um pequeno povo economicamente atrasado, contra a maior potência bélica da histórica da humanidade, foi a revolução vietnamita - cujos 30 anos do seu desfecho vitorioso estão sendo comemorados.
Depois de acreditar em sua invencibilidade - fingindo que não havia sido derrotado, pela primeira vez, na tentativa fracassada de invasão de Cuba, em 1961 - os EUA se propuseram a se deslocar para o outro lado do mundo, para dar uma lição naquele pequeno paísinho que havia se atrevido a derrotar a França em 1954.
Promoveu-se o maior deslocamento de tropas desde o final da segunda guerra mundial. Os EUA chegaram a ter 700 mil soldados em território vietnamita. Bombardearam sistematicamente as cidades e os campos. Protagonizaram os piores massacres que se havia conhecido desde o holocausto nazista. Despejaram napalm em toda a agricultura do norte e do sul do Vietnã. Minaram os portos do país. Mas foram fragorosamente derrotados.
Há exatamente 30 anos atrás, os EUA tiveram que retirar sua bandeira da sua embaixada em Seul e fugir rapidamente, em helicópteros disputados como únicos instrumentos de salvação que restavam pelos seus agentes no Vietnã. A maior potência do mundo era derrotada por um pequeno país, produtor de arroz, modesto, mas tenaz, munido de um sentimento de dignidade, de uma ideologia consolidada, de uma liderança legítima - personificada em Ho-Chi-Minh e no ainda sobrevivente, o general Nguyen Von-Giap.
A vitória vietnamita demonstrava que os pequenos podem vencer os grandes, se defendem uma casa justa, se sabem mobilizar o povo, se sabem se sacrificar pelos seus ideais. Foi por isso a mais bela de todas as gestas do século 20. Consciência, organização e mobilização, foram - e continuam sendo - as armas dos mais fracos, para lutar contra os mais fortes. ''Transformar a indignação em atos concretos'' - como nos concitavam os vietnamitas, em busca de solidariedade - é uma das chaves de sua luta: transformar a força moral e força política.
Foi preciso derrotar impulsos emancipadores para que este quadro aparentemente sem esperança se imponha no começo do novo século. Mas uma leitura histórica, para além dos reducionismos impressionistas de colunistas de ocasião, revela a capacidade de luta da humanidade por sua emancipação, que busca novas formas de realização - sempre mediante as surpreendentes reaparições da velha toupeira da revolução. Começamos a viver, na América Latina, a reaparição do bichinho, que depois de se encubar no subterrâneo das contradições do velho sistema de poder, ressurge com vigor, revelando as surpresas que nos reserva o século 21.