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O último lugar honesto dos EUA


Quando a economia é chamada de economia-cassino, porque a jogatina das bolsas de valores comanda a vida do mundo, como olhar para a cidade que se sente ofendida pela apropriação da sua forma de ser pelo resto do mundo? A cidade é Las Vegas, ''cidade de sonhos e de fantasias'', dos enganos e das ilusões, ''um mini-mundo completamente livre dos pretensos protocolos da moderna sociedade capitalista de consumo'' - segundo o autor do livro O último lugar honesto nos EUA: paraíso e perdição em Las Vegas, Marc Copper.

Las Vegas, onde Wall Street foi buscar seu modelo, deveria ser considerada, na sua opinião, '' a capital simbólica'' dos EUA. Em diferentes momentos da história estadunidense, diferentes cidades foram o ponto de irradiação do ''espírito norte-americano''. Na era revolucionária, Boston personificou os ideias de ''liberdade''. No século 19, Nova York se tornou o símbolo do caldeirão de raças dos EUA. No começo do século 20, a elevação do automóvel a mercadoria exemplar do ''american way of life'', promoveu Chicago como a capital mundial da indústria automobilística.

Atualmente será preciso olhar para o estado de Nevada, para Las Vegas, como ''uma metáfora do caráter e da aspirações nacionais'', com suas imagens estereotipadas de uma máquina de caça-niqueis e um coro de vedetes de maiô. Las Vegas triunfou e o mundo norte-americano elevou Las Vegas como seu símbolo, porque a cidade é completamente devotada ao entretenimento, no momento em que este se tornou a atividade hegemônica no lazer estadunidense, ao mesmo tempo que invade toda a vida social.

Las Vegas também exportou sua arquitetura para o resto das metrópoles, de lá e daqui, quando os cassinos invadem as metrópoles e até as cidades médias do Brasil, com seu estilo lasveguiano, com feérica iluminação, grandes limusines na porta e a ilusão do divertimento e do ganho fácil. Em Las Vegas, uma espécie de Leviatã moderno foi construído, com o maior cassino no mundo, depois o maior hotel do mundo, o hotel mais caro do mundo, o hotel com os maiores quartos do mundo etc.

Cooper, colunista do The Nation, recorda que se o economista Schumpeter havia teorizado que a destruição criativa seria um fenômeno essencial do capitalismo, então o capitalismo praticado em Las Vegas é sua melhor expressão atual. A construção dos mega-resorts em Las Vegas não foi apenas precedida da implosão dos prédios que dariam lugar a eles, com transmissão por televisão, como foi também acompanhada pelo colapso de grande parte do resto da infra-estrutura urbana, industrial e de empregos nos EUA.

Mas ao mesmo tempo Las Vegas é a única cidade dos EUA em que os trabalhadores não qualificados conseguem - graças à força dos sindicatos locais e a riqueza das empresas - ganhar salários médios. Vendedores de comida, cuidadores de estacionamento, caixeiros, empregadas domésticas ainda podem sonhar com as ilusões do consumo, de comprar uma casa e colocar os filhos nas escolas.

Até mesmo a recessão turística depois dos atentados de 2002 afetou menos Las Vegas, que continuou atraindo entre 5 e 6 mil refugiados econômicos por mês. Apenas 6% dos adultos que vivem na cidade nasceram ali. A população de Las Vegas dobrou nos anos 80 do século passado e voltou a dobrar na década de 90. Ao mesmo tempo, as taxas de suicídio e de violência doméstica estão entre as mais altas. Esses novos imigrantes fogem de um EUA em que a vida cotidiana tornou-se uma jogatina muito mais perigosa e vão se refugiar ali onde as roletas comandam sem disfarce.

Las Vegas impôs sua hegemonia sobre os EUA também porque outras cidades importaram aspectos do seu estilo de vida. A legalização dos jogos fez com que 27 estados do país tenham cassinos como os de Nevada e 48 tenham legalizado alguma forma de jogo.

Com os déficits públicos dos governos locais, estes passam a apelar para loterias e até mesmo para cassinos, buscando subterfúgios para reequilibrar suas finanças. Em 2003 o prefeito de Chicago inaugurou o primeiro cassino municipal. Antes da explosão de Las Vegas apenas 15% dos estadunidenses tinham visitado a cidade. Meia década depois esse número tinha duplicado.

A indústria do jogo floresce: em apenas um ano, 2001, 51 milhões de estadunidenses visitaram um cassino, totalizando quase 300 milhões de visitas em todo o país. Mais do que 430 cassinos arrecadaram 26,5 bilhões - duas vezes e meia mais do que os estadunidenses gastam em entradas de cinema, 5 bilhões a mais do que gastam em DVDs e vídeos e 3 bilhões a mais do que gastam em cosméticos e artigos de toalete.

Perguntado sobre se os investimentos nos cassinos eram um bom negócio, um executivo de Las Vegas respondeu: ''A diferença entre nós e a Enron é que o nosso dinheiro é real''. Por tudo isso Las Vegas tornou-se a cidade símbolo da versão atual do capitalismo e do american way of life, o último lugar honesto nos EUA. Façam seu jogo, senhores...


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[13/MAR/2005]


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