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Bush, Kerry, o mundo e nós


Emir Sader

A pergunta costuma vir sempre condicionada: Quem é melhor para o Brasil, Bush ou Kerry? Antes de tudo temos que pensar-nos como parte da humanidade e recolocarmos a questão: Quem é melhor - ou menos pior, se quiserem - para o mundo atualmente? A questão tem que ser colocada nesses termos, também pelo fato de que uma eleição estadunidense coloca em jogo os destinos de todo o mundo, dado o peso que o governo desse país tem sobre toda a humanidade.

Na política internacional, hoje permeada diretamente pela política de guerra do governo Bush - tendo o Iraque, a Palestina e o Afeganistão como epicentros -, os dois assumem as mesmas ameaças, o mesmo direito de ações preventivas, o mesmo compromisso de aumentar as ações no Iraque, acreditando que há uma solução militar para o problema. A diferença estaria no unilateralismo expresso de Bush e na suposta disposição à consulta aos aliados por parte de Kerry. Mas este, conforme a campanha republicana foi colocando ênfase no fato de que os EUA teriam que ''pedir licença à França'' para defender seus interesses e à dificuldade de compatibilizar o direito a ações preventivas com consultas a aliados, Kerry foi mencionando cada vez menos essa diferença e assemelhando cada vez mais sua política com a de Bush.

Uma campanha e um governo radicalizados à direita como os de Bush condicionaram as posições de Kerry. Bush argumenta com a simplicidade da mente média dos estadunidenses, que os republicanos querem diminuir os impostos e os democratas querem aumentá-los. Diz também que ''não se troca de comandante no meio de uma guerra''. A primeira afirmação pode ser perfeitamente contestada, dado que os impostos só foram reduzidos para os ricos, mas diante do segundo, Kerry não sai da armadilha e admite que os EUA estão em guerra - ele mesmo votou a favor da guerra do Iraque no Senado -, ressaltando apenas que a política depois do fim formal do conflito é que teria sido equivocada. Mas aceita as premissas de Bush e isso o debilita.

Uma vitória de Bush - já não importa se com maioria no eleitorado, mas com vantagem no antidemocrático Colégio Eleitoral - daria a ele ainda mais apoio para seguir levando adiante sua política de tentativa de resolução dos conflitos mundiais baseado na superioridade militar dos EUA, aprofundando a situação de selvageria em que vivem as populações iraquiana e palestina, entre outras. Uma derrota de Bush significaria que nem sequer a população do seu pai deseja a continuidade dessa política, que seu discurso de chantagem com o tema da segurança não consegue obter sequer a maioria dos votos internos dos estadunidenses.

As diferenças significativas entre os dois ficam para o plano interno e particularmente para as políticas sociais, em que os republicanos são particularmente cruéis e concentradores de benefícios e de renda. Bush leva à prática a uma nova ofensiva conservadora, que inclui o enfraquecimento da educação pública e laica a favor das escolas religiosas, ao mesmo tempo em que dá continuidade a um tema chave na retomada da ofensiva conservadora nos tempos de Reagan - atacar o direito ao aborto apropriando-se da defesa do ''direito à vida''. Enquanto Kerry não apenas é mais progressista em temas como o aborto, o direito ao casamento homossexual e a defesa de pesquisas de células-tronco, como é menos conservador em políticas sociais, o que afeta à grande maioria da população, especialmente os idosos, os negros, as mulheres, os imigrantes e os jovens e crianças pobres. Assim, pelo que reservam para a massa dos residentes nos EUA, a vitória de Kerry representaria ganhos, enquanto que oito anos seguidos de um governo radical de direita consolidaria posições conservadoras no plano dos direitos, assim como na nomeação dos juízes da Suprema Corte.

Um efeito colateral não desejado também traria vantagens - para nós, brasileiros e latinoamericanos, pelo menos - em uma eventual vitória democrata: o tema da Alca. Apelando para os votos dos sindicatos e dos ecologistas, Kerry se compromete com a introdução de cláusulas trabalhistas e de defesa do meio ambiente nos acordos comerciais externos dos EUA, na tradição do maior protecionismo democrata, reforçado pelo programa de incentivo à repatriação de investimentos para elevar o nível de emprego proposto por Kerry. Estas medidas tornaram ainda mais problemáticos avanços no já difícil caminho de implementação da Alca - um dos temas chaves do liberalismo no plano continental. Como uma de suas conseqüências, uma postura mais dura dos negociadores de um governo Kerry produziria como um de seus efeitos um impulso maior ao projeto dos governos brasileiro e argentino de priorizar a integração sul-americana através de um novo Mercosul.

Assim, entre efeitos conscientemente desejados e colaterais, uma vitória de Kerry seria menos ruim, embora os EUA seguissem no pântano da guerra em que se meteram com Bush, apoiado pelos democratas, inclusive Kerry. Para o mundo, para os estadunidenses e para o Brasil e os latinoamericanos.


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[17/OUT/2004]


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