Os atentados de setembro de 2001 fizeram aflorar à superfície uma crise de identidade que amadurecia muito tempo antes nos Estados Unidos. A derrota no Vietnã foi o catalisador dos problemas acumulados na sociedade mais injusta entre todas aquelas do centro do capitalismo.
Depois de intervenções em tantos cantos do mundo, dar uma lição naquele pequeno país asiático produtor de arroz, parecia um passeio a mais. No entanto nunca como ali Davi caiu diante de Golias. 700 mil militares estadunidenses no Vietnã, portos do país minados, bombardeios com substancias ácidas - toda a brutalidade de que o império era capaz, não impediram humilhante derrota.
Embora os EUA já tivessem sido derrotados na tentativa fracassada de invasão de Cuba em 1961, foi no Vietnã que, mesmo usando todo seu arsenal bélico, tiveram que arrear suas bandeiras da embaixada e fugir de volta pra casa, com mais de 70 mil mortos - embora tivessem deixado atrás de si a milhões de mortos. Acelerou-se a crise interna nos EUA, primeiro articulando-se com a luta pelos direitos civis, junto com as mobilizações estudantis - em um período em que, em poucos anos, se deram os assassinatos de John Kennedy, de Malcom X, de Robert Kennedy y de Martin Luther King - desembocando depois no caso Watergate e na renúncia de Nixon.
Mas a ''guerra fria'' repunha a identidade estadunidense como cabeça da luta ''anticomunista'' em escala mundial. Seu espírito ''missionário'' encontrava nessa luta a reafirmação de sua identidade fundamental. Nas palavras de John Updike: ''Sem a guerra fria, que sentido tem ser estadunidense?''
O fim da ''guerra fria'' abriu a temporada de busca de inimigos. Primeiro foram os ''narcoguerrilheiros'', logo vieram os ''terroristas'' - sempre a ser combatidos por ''guerras'', que foi onde se construiu a identidade estadunidense - na guerra de independência, na guerra civil, nas duas guerras mundiais, na ''guerra fria''.
A tese da ''guerra de civilizações'' de Samuel Huntington vem preencher essa lacuna, com todo o seu arsenal de discriminação e de racismo contra tudo o que não seja ocidental, branco, protestante e anglo-saxão. Na sua versão mais recente - seu livro Quem somos nós? - Os desafios à identidade nacional estadunidense - Huntington localiza no ''perigo'' mexicano o inimigo que os estadunidenses precisam.
Depois de relatar os riscos que os estadunidenses correm ao ter um vizinho invasivo que não compartilha daquelas características que definiriam a superioridade dos estadunidenses, Huntington enuncia quatro alternativas que restariam ao império em crise de identidade. A primeira possibilidade é que os EUA se tornassem uma em país multicultural, uma espécie de confederação de grupos étnicos, raciais, culturais e políticos, com pouca coisa em comum - na sua visão -, condenando-se a uma desaparição não muito longínqua no tempo.
A segunda faria com que a continuidade da imigração em massa de mexicanos produzisse um país cada vez mais bifurcado em termos de idioma e de cultura. Os EUA perderiam sua unidade cultural e lingüística - os dois elementos centrais de sua identidade, segundo Huntington - e se converteriam em sociedade cindidas, como seriam o Canadá, a Suíça e a Bélgica.
A terceira possibilidade seria que os estadunidenses ''nativos brancos'' colocassem em prática uma reação de recuperação dos conceitos étnicos de identidade estadunidense, com ''a criação de um país que excluísse, expulsasse ou reprimisse a pessoas de outros grupos raciais, étnicos e culturais''. Esse tipo de reação, segundo ele, ''é bastante provável quando um grupo étnico-racial dominante no passado se sente ameaçado pela ascensão se outros grupos'', produzindo-se um clima de intolerância racial.
A última possibilidade demandaria que os estadunidenses revigorassem sua cultura central, voltando a se comprometer com um país ''profundamente religioso e predominantemente cristão'' ressaltando os valores protestantes, anglofalantes, preservadores da cultura européia e comprometidos com os princípios do ''Credo'' estadunidense. ''A religião foi e continuará sendo um elemento central (talvez o elemento central) da identidade do estadunidense''.
Essas as alternativas para a resgate da identidade estadunidense, segundo Huntington, um autor considerado como alguém que costuma escrever o que os estadunidenses estão querendo ouvir. No horizonte, um desejo de limpeza étnica e de ''purificação religiosa'' nas hostes imperiais.