Cortazar narrou a aventura que significava ir a Cuba no auge da Guerra Fria, quando os passaportes brasileiros tinham estampado: ''Permitido para todos os países, exceto para Cuba''. Era necessário pegar um vôo que passava pela Irlanda, chegava a Praga, onde se aguardava num hotel a entrega de passaportes falsos, antes de poder desembarcar num país que está hoje a nove horas de vôo do Brasil.
Não é fácil falar de Cuba, diante da superpolitizacão do tema. Existe sempre a pergunta: ''É contra ou a favor de Cuba?'' Não faz sentido perguntar se alguém é ''contra ou a favor do Brasil'', da Itália ou da Índia. Separa-se o país dos seus governos. Talvez o caso mais parecido sejam os EUA, especialmente nos últimos anos, quando Bush pretende identificar seu governo com a totalidade do país. Por trás de um governo, existe um país, com suas pessoas, sonhos, cotidiano, dificuldades, decepções, esperanças.
A primeira sensação de diferença que se sente em Cuba é em relação à temporalidade, muito mais lenta, como se estivesse imune à compulsão capitalista. Claro que o clima caribenho contribui, mas o caráter de uma sociedade com finalidades distintas da capitalista intensifica essa sensação.
A ausência de poluição visual e auditiva é outras das características. Comendo no terraço de um restaurante colonial restaurado em Havana Velha, se sente um silêncio que, entre nós, costuma ser preenchido pelo som dos televisores ligados ou pelo ruído do trânsito. Da mesma forma, andar pela rua nos dá a sensação real de como nossos espaços urbanos estão repletos de cartazes de publicidade dos mais diferentes tipos.
Havana, com o advento da revolução, em 1959, deixou de ser vítima da especulação imobiliária que, em poucas décadas, transformou - devastando-a - a fisionomia das nossas grandes cidades. Está marcada pela presença do Caribe, que a cerca, praticamente sem praias no Centro da cidade.
Cuba teve, pela sua proximidade dos Estados Unidos, destinos muito especiais, desde a colonização espanhola. Quando os espanhóis estavam sendo derrotados pelo exército cubano, apesar de aqueles lutarem com armas de fogo e estes com facões de cortar cana, os norte-americanos intervieram, instalando um regime político tutelado. Os dois países que tiveram sua independência bloqueada pela intervenção dos EUA - Cuba e Porto Rico - acabaram tendo os destinos mais extremos no continente: um, se tornou socialista; o outro, uma quase estrela na bandeira norte-americana. Isso bastaria para dar uma idéia do peso que passou a ter a relação de cada país com a emergente potência imperial.
Cuba já tinha inscrito no seu território, antes mesmo da revolução de 1959, essa presença dos EUA, com a sobrevivente base militar norte-americana de Guantánamo. As medidas impostas por Washington, similares às do Canal de Panamá, deveriam ter vigência de um século, mas se no caso do canal houve devolução, a base militar continua lá, agora abrigando, sem nenhum controle internacional, à margem da lei, centenas ou talvez milhares de pessoas presas sob acusação de serem talibãs.
Hoje, o bloqueio econômico também se inscreve no cotidiano da vida cubana. O não reconhecimento recíproco dos governos cubano e norte-americano faz mal aos dois países e aos dois povos. As sanções de bloqueio são, por definição, instrumentos dos países fortes contra os fracos, já que aqueles possuem força para fazê-lo. No caso, a vitima é Cuba, pela inferioridade no plano econômico. Mas a diabolização do outro é negativa para os dois lados. Só pelo reconhecimento mútuo dos governos, justamente na sua diversidade, é que pode se dar uma normalização, a convivência de países com governos distintos, contraditórios neste caso.
Tentei falar de Cuba sem um tom político, mas me dou conta de que não pude evitar as referências que condicionam a sobrepolitização do tema. O principal será evitar o maniqueísmo. Como diz o diretor da Casa das Américas, Roberto Retamar, Cuba não é nem céu nem inferno. Na sua opinião, é ''o melhor dos purgatórios possíveis''. Nada tão digno dos cronopios