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A política como sedução


O que têm em comum Reagan, Schwarzenegger e Berlusconi? O uso da sedução na política. Entre os dois primeiros, os elementos comuns parecem claros. Na Califórnia, Estado de Hollywood, não é difícil imaginar como o triunfo do mundo das imagens no mundo da política tenha ali seu berço. Berlusconi, por sua vez, projetou a imagem do ''empresário vitorioso'', além disso magnata da mídia. Berlusconi afirmava expressamente que iria fazer ''dar certo'' o Estado italiano, da mesma forma que o havia feito com suas empresas (um objetivo ideal do liberalismo é refundar o Estado conforme a lógica do custo/benefício).

Em todos os casos, a onipotência está projetada através das imagens, substituindo o raciocínio pela sedução.

Na manipulação da opinião pública, da mesma forma que no funcionamento do Estado, as armas da sedução levam a melhor sobre a convicção racional. É o triunfo do mercado sobre a política, dos interesses privatistas sobre o interesse público, da pesquisa de opinião sobre o debate e o voto, da audiência sobre o poder de convencimento, da imagem sobre o raciocínio, da sedução sobre a razão.

A crise do público e, com ela, da democracia, se reflete na prioridade do local, do urgente, do ''concreto'', em detrimento dos princípios; no declínio dos sindicatos e dos partidos em benefício de ''redes'' e de lobbies; no emperramento das formas públicas de representação, substituídas por radiografias de supostas ''opiniões públicas'' e pesquisas qualitativas; na eliminação, seguindo o modelo norte-americano, das fronteiras entre o público e o privado; no poder de arbitragem que a mídia privada se atribui, no lugar das instâncias públicas, eleitas democraticamente pelo voto universal; na degradação do serviço público e da idéia de esfera e interesses públicos, a favor da ''filantropia'', das campanhas televisivas, das ''parcerias'' com empresas privadas, do ''voluntariado''.

A isso corresponde a mudança dos discursos dos governantes, sempre televisionados, que perdem solenidade em favor das alocuções dialogadas, do vocabulário familiar, proverbial, com planos próximos, até o grande plano do rosto do chefe de Estado, como marca da máxima intimidade.

Tradução do declínio simbólico, o recuo comprovado da leitura colocou o consumo audiovisual no primeiro lugar do emprego do tempo do cidadão. Um Estado que não ocupasse a telinha perderia o contato com a opinião pública. Os indivíduos, por sua vez, são concitados a abandonar seu status de cidadãos, para reduzir-se ao de consumidores, ouvintes, televidentes, assinantes.

É a TV que faz o Estado, não o inverso. Não é a TV que se adapta ao Estado e ao poder, mas este que se adequa àquela. Governantes e políticos em geral falam para a telinha, para a chamada do telejornal; buscam pautar o noticiário com frases curtas e de efeito. Sua plena realização é a reprodução pela mídia das imagens que forjou, dos provérbios a que apelou, das modas linguísticas que logrou introduzir.

O Estado cidadão fica superado pelo Estado sedutor. Se aquele manifesta uma tendência progressista, o Estado sedutor não consegue esconder sua tendência conservadora. A educação é um mito da esquerda, a comunicação um mito da direita. A primeira vê no homem um ser dotado de razão, com capacidade de julgar bem e deliberar de acordo com esse julgamento. A segunda, um ser de necessidade destinado, antes de tudo, a possuir e trocar mercadorias. A publicidade tem o lucro grudado na pele. Por isso o publicitário é mais valorizado do que o professor; na sociedade da mercadoria, do tudo se vende, tudo se compra.

Os valores assimilados pelos alunos passam pela TV, pela música, pelo rádio, pela moda, pela publicidade, mais do que pela escola. As escolas privadas já não recebem mais alunos, mas usuários, clientes, consumidores.

O Estado se deixa aprisionar pelo aparelho ideológico do mercado midiático, regulado pela ditadura das sondagens.

Num mundo assim constituído, Reagan, Berlusconi, Schwarzenegger se tornam os grandes protagonistas. Cowboys, ''mocinhos'', empresários magnatas da comunicação: chegará o dia em que seremos convocados a votar em Pedro Bial para evitar que Alexandre Pires se torne presidente do Brasil, se não resgatarmos o caráter público - e portanto, democrático - da política.


[12/OUT/2003]


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