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A caixa de Pandora


Eu tinha certeza que ia acordar com um monte de e-mails de sionenses, pedindo satisfações, porque, na véspera, o jornal trocou o nome de Père Marie por Mère Marie, na minha crônica sobre o Sion. Acharam que tinha sido erro meu. Como meu, mes enfants? Parece até que não passei o primário inteiro olhando pra foto deles nas paredes das salas e ouvindo as meninas, entredentes, imitando o Balança mas não cai: ''Quem é aquele de barba? E aquele sem barba?''. É ruim de eu não saber que eles fundaram o colégio com o objetivo de converter os judeus à religião católica, hein? Agora chega de Sion. Vou dar um bom tempo nele... Au-revoir, ma mère. Merci, ma mère...

Fui ver Celeste e Estrela, o filme da Betse de Paula, no Estação Leblon. Ela é sobrinha do Chico Anysio e tão engraçada quanto ele. Dei boas gargalhadas com a história de Celeste, que não só é a heroína da história e alter ego da diretora, como também uma heroína, ao pé da letra, que consegue, depois de 53 respostas negativas de firmas, 53 depressões e muita garra, captar recursos para o seu projeto cultural, calvário por onde passa a maioria dos artistas no Brasil.

Claro que me identifiquei com Celeste, já que há dois anos tento viabilizar a idéia de um sitcom pra televisão, baseado nas minhas crônicas. Já fui a tantos lugares que perdi a conta, projeto debaixo do braço, louca pra voltar pra casa e arrancar, como Celeste, os saltos altos e o tailleur. Ainda bem que ainda não estou como a Dercy Gonçalves, que disse numa entrevista:

- Quero mesmo é voltar pro quarto, tirar peruca, pestanas e dentadura...

Nem os artistas centenários são respeitados neste país... Por isso somos um povo tão criativo...

Na saída do cinema o meu carro tinha sido escondido por milhares de outros. Murchei a barriga pra passar entre os espelhos retrovisores e tentar abrir a porta do meu, enquanto o guardador, bem-humorado começou a gritar:

- Mulher no volante! Mulher no volante! Venham tirar os carros depressa, gente boa! Mulher no volante!

Em um segundo fui liberada por motoristas em pânico diante do perigo iminente e graças a Deus pude sair tranqüilamente, com pedidos de desculpas do guardador, muito mais bem-humorado do que eu, apesar da minha terapia: Platão, Prozac e Prosecco, baseada nos filósofos gregos. Acho que vou mudar de profissão. O negócio é ser guardador de carro no Leblon. Periga da disputa do ponto ser à bala, mas quem me diz que a captação de recursos também não está chegando lá?

Como são criativos os guardadores, os camelôs que improvisam cadeiras pra fila do INSS, as mães-de-santo que trazem de volta a pessoa amada em três dias... Esses profissionais são um verdadeiro manual de sobrevivência na selva. Somos os reis do improviso. Quem não tem cão caça com gato. É o país dos gatos. Meu pedreiro, por exemplo, acha um absurdo eu pagar luz...

- Faz um gato, madame.

Somos um bando de gatos devido ao roubo sistemático dos cachorros. Um triste desenho animado ao contrário, onde só ganha o mais forte. Será que a gente nunca vai conseguir produzir um Tom e Jerry em que no final ganha o rato? Quando é que vai se poder trabalhar sem depender de QIs (quem indica), cada vez mais difíceis de encontrar, já que depois dos 15 minutos de fama vigentes qualquer Q está sujeito a se tornar um D de desconhecido da noite pro dia? É preciso uma cultura de Caras muito profunda pra atirar no alvo certo e acertar a celebridade do momento.

Mas não são só os pobres deste país que são criativos. Os patrocinadores suplantam qualquer criatividade com a invenção do caixa dois, espécie de caixa de Pandora que guarda uma nuvem negra junto com monstros horríveis que devoram quem ousar chegar perto.

Ainda bem que continuo otimista, achando que tudo é passageiro, menos o motorista e o motorneiro. Ainda sou capaz de ouvir e de entender estrelas (mesmo a do PT), apesar de ser artista e de toda a tentativa de captação de recursos, assim como também ainda posso, como Pandora, sentir as batidas tímidas da esperança tentando sair da caixa.


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[06/MAI/2005]


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