Confesso que troquei as bolas na minha última crônica quando contei que, do hospital, em Roma, onde me encontrava doente, pude acompanhar a sucessão do papa João 23 por Paulo VI, em 1963!
Por que teria acontecido esse ato falho? Talvez pelo fato de preferir João 23, eu tenha matado o pobre do Paulo VI? Sabe Deus... Já troquei algumas bolas na vida, sem falar das que troquei para sempre sem poder corrigir depois. Seriam mesmo bolas trocadas que nos fazem tomar outros rumos ou é a essas bolas trocadas que se dá o nome de destino?
Até hoje fico pensando em amores deixados pra trás e fazendo a fantasia de que teria sido mais feliz com o namorado de Israel, por exemplo, que me reapareceu agora, pela internet, mandando e-mails ao som da Gal cantando Baby, I love you... Por que não fiquei com ele, que foi minha grande paixão na vida? Conscientemente, acho eu. O que se deve chamar de destino? O que dita o consciente ou o inconsciente? O que é essencial ou acidental? Porque, inconscientemente, fiz tudo ao contrário do que minha paixão mandava.
Depois de um ''exílio'' que durou cinco anos, de carona com o meu marido, eu não tinha a menor vontade de morar em Israel, ainda por cima em guerra, e sim passar os dias, em paz, nas praias do Rio de Janeiro. Hoje teria trocado o sol por ele... It's destiny, baby... É o que ele me responde, casado com a mesma mulher que conheceu depois de mim, há quase 30 anos... Destiny... Será? Nunca acreditei em destiny.
Sempre achei que a vida é como um roteiro que se planeja, cujas primeiras cenas resultarão nas últimas, num encadeamento preciso assim como as conseqüências são desencadeadas pelos fatos. Cenas gratuitas não podem entrar num bom filme com a diferença de que, tratando-se de cinema, o diretor vê o filme pronto, tendo, portanto, a chance de cortar ou acrescentar cenas, planos ou diálogos tornando o produto relativamente perfeito.
Já a vida não é exata, navegar não é preciso e o filme que cada um faz da sua é sempre inacabado, fazendo com que se possa acrescentar ou cortar cenas, mas nunca depois de pronto, o que dificulta a perfeição do produto final, que tem, portanto, que ser premeditado ou intuído. E o que torna ainda mais complicado o ideal de finalização desse produto é que, apesar de inacabado, o filme da vida tem um tempo de garantia, de validade para mudanças, depois disso o ''celulóide'' não cola mais.
Eu bem que tento montar de novo, ver como seria se fosse colar com cuspe, talvez sabendo que vai quebrar logo, mas eu tento. Já tentei uma vez, quando fui encontrar um ex-namorado que morou a vida inteira nos Estados Unidos. Desde que ele abriu a porta do meu quarto no hotel, vi que não era mais ele, quer dizer, aquele que eu tinha conhecido. Era um senhor, digamos assim, com aquele gato que eu tinha conhecido dentro. Até aí, tudo bem... Mas é que quando o ''gato'' se manifestava era sempre defasado, falando umas gírias que nem minha avó diria... ''Eu, hein, Rosa?'' E ainda por cima ele tinha ficado chato!
Então pensei que ele sempre tinha sido chato, mas eu abafava o caso de mim mesma porque ele era muito, mas muito bonito. Pois agora tinha ficado só chato... Mas eu gostei de ter pago pra ver. Admiti, afinal de contas, que ele era chato... Mas esse namorado de Israel (que só diz I love you através da Gal) não é chato, só não tem coragem de me ver. Nem de me telefonar. Pois eu tenho. Propus a ele passarmos um fim de semana em Roma, onde nos conhecemos. Nos encontraríamos numa sexta-feira, em Piazza Navona, e, segunda, ele voltaria pra Tel-Aviv e eu pra Botafogo! Assim teria tirado a limpo essa sensação de não ter feito. Prefiro os excessos às faltas, apesar de, às vezes, os excessos serem inúteis. Por isso se chamam excessos... E o pior é que ficam lá carimbados, imexíveis, como diria o Magri. (Que fim teria levado ele? ''Eu, hein, Rosa?'')
Tem gente que diz que é melhor não mexer no passado. E a verdade é que eu não gosto de ver foto antiga, cartas, a casa dos meus pais, nada. Mas mexer num passado que continua tão presente, eu pago pra ver. Ver como evoluiu uma pessoa querida, que fez parte da minha vida, que foi minha paixão. Será que eu seguraria ficar casada 30 anos? Acho que, conscientemente, não. Ou seria inconscientemente? Não sei explicar o quem vem antes, se o ovo ou a galinha. Um aparente, outro escondido. Um dissimulado, outro óbvio. Um nem tão dissimulado, outro nem tão óbvio... Ambos se confundindo e se traindo em atos falhos. Anos de análise pra descobrir quem é quem...
Talvez para as pessoas racionais o consciente venha antes e para os intuitivos, o inconsciente ganhe de goleada. Pertenço a essa última categoria, infelizmente por isso vim pro Rio em vez de ir pra Israel, é claro... Bom é ser solteiro no Rio... Sei que a oportunidade de ter tido uma vida totalmente diversa passou, ou seja, perdeu um tipo de validade. Mas acho que as pessoas são como obras de arte em que aos poucos se descobrem novos aspectos. Prefiro avançar no labirinto e vencer o Minotauro... Quase sempre mais mino que tauro...