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A onda carioca nos tempos da intimidade


Vicente Pereira já tinha falado dela: a grande onda que acabaria com a Terra em 2000, segundo Nostradamus, e 2012, segundo o calendário maia. Ele até escreveu uma peça sobre ela, a onda, que chegou em plena noite do Oscar, quando uma família fútil da Barra curtia a cerimônia transmitida pela televisão. A família continuava torcendo, grudada no vídeo, esperando ansiosa a abertura dos envelopes enquanto o apresentador lia: ''E o Oscar de melhor ator vai para...'', enquanto o mundo acabava lá fora.

Era uma idéia primorosa. Eu fazia a amiga da dona da casa que entrava dizendo: ''Só vim pra dizer que não venho...'', mas aí o mundo acabava e ''ela'', a personagem, tinha de ficar.

Lembrei-me de todas essas histórias de ondas com o tsunami da Tailândia. Que onda... Meu neto nascendo nas montanhas e as pessoas morrendo na praia. Literalmente. E continuam morrendo enquanto outras passam o réveillon em Copacabana (debaixo de um foggy estranho), vão ao futebol ou assistem ao Oscar. Foggy... Eu, hein? Ai de ti, Copacabana... Enfim, o mundo tá ficando esquisito... Não é mau, não é bom, é esquisito... Meu primo diz que ficou esquisito desde que acabou o restaurante Antonio's. Que aquilo foi um marco. Antes e depois do Antonio's.

O Antonio's fazia ainda parte de um Rio menor herdado de um tempo com menos gente, onde todos se conheciam, tinham conta, ''penduravam'', se ajudavam, se emprestavam, dormiam até no sofá do restaurante. Ninguém achava que ia morrer esfaqueado, assaltado, aviltado, enquanto ficava ouvindo o Tom Jobim cantar Garota de Ipanema na varanda aberta. Também se namorava mais. Tinha homem, tinha mulher, tinha gay, tinha de tudo. Não era esse três em um que é hoje, quando a gente compra o pacote trissexual, ou metrossexual, como diz a Hilde... Que onda... A escolha era farta... Morríamos de rir. Não de tédio nem pela violência, andando pela praia de madrugada e discutindo a relação.

Os bares não fechavam. Saíamos do Antonio's e íamos pro People's, ali em frente, de madrugada.

- Pê-i-pê-ó! - soletrava a cantora famosa no orelhão da esquina. Escreve aí: Pipó!

Nada fechava. Hoje em dia fechou tudo. Até o Cervantes, em Copacabana, que sempre varou as madrugadas. Não sei do Bar Bico, que tambem era páreo. Mas o Cervantes... E pra comprar remédio agora naquelas farmácias que se dizem abertas 24 horas? Abertas, mas de ''burca''. Só se enxerga o olhinho apavorado da vendedora louca pra se livrar da gente. E aí elas mandam o remédio por um buraquinho no vidro ao mesmo tempo em que se entrega o dinheiro pelo mesmo lugar, como num empate de cartas. Porque, se não for ao mesmo tempo, quem garante à vendedora que se vai pagar? Que onda... Imagine se a gente não pudesse comprar Alka-Seltzer ou Engov, na saída do Antonio's, a qualquer hora, em qualquer lugar? Nunca mais se voltaria à farmácia que tivesse cometido tal falta de elegância...

O Rio era menor. Ninguém morava na Barra, por exemplo. Ninguém. Ficava tudo aqui pelo miolo, a graça era essa, ninguém se espalhava. Espalhar pra quê? O bom era juntar, conhecer todo mundo, ter intimidade, pertencer.

De repente o Rio cresceu, o mundo cresceu, virou yuppie, ninguém mais conheceu ninguém. (Ou passou a fingir que não conhecia.) Virou bonito ser importante, não responder a ligações. Não atender os amigos. Ser yuppie. Foi aí que acabou o Antonio's, junto com a intimidade, a solidariedade, a amizade, os grupos. Passamos à era dos desgarrados. Ninguém mais pertence a nada, a ninguém. Daí o esforço solitário pra se pertencer às grandes organizações que substituíram a família... Trocou-se a solidariedade pela competição. E começou o pesadelo. Porque o homem foi feito pra viver com seu semelhante, não pra fugir dele como o diabo da cruz. Que onda...

Ô coisa pau essa moda dos anos 80, como diria minha avó... Grana, grana, grana. Resultou no Bush, na extrema-direita se unindo na Europa. Bem-feito. Cantavam? Pois dancem agora. Já a onda hippie deu origem à ecologia com seu caminho alternativo descoberto com a volta à natureza, às raízes. Vivia-se a ideologia do paz e amor...

Aqui da janela do sítio do Silvio Flores (um dos que acabaram fugindo da cidade), fico pensando em tudo isso... Bom lugar esse pra se construir outra arca de Noé no caso da grande onda... Mas, afinal, pra que é que Noé teve tanto trabalho com os bichos, se foram eles os únicos que se salvaram do tsunami? Que pressentiram a catástrofe e se mandaram antes da grande onda? Talvez naquela época a coisa estivesse mais feia que agora e não houvesse mesmo pra onde escapar. Que onda...

Que festa de arromba vamos fazer no sítio do Silvio pra comemorar a vida e unir as pessoas antes que tudo se feche pra sempre, que tudo se espalhe, que tudo mude e se esvaia de vez na grande onda.

Que onda...


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[07/JAN/2005]


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