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Meu gato é politicamente incorreto


Um belo dia dei por falta de um dos meus gatos (gato-bicho, certamente, pois o outro já sumiu há mais tempo, com uma gatinha que podia ser bisneta dele). Procurei por toda a casa e nada! Fiquei preocupada, pois a última vez que o vi estava cabisbaixo, travado, ''na fossa''. E como ele nunca teve em sua breve vida esse perfil de Tania Scherr, retratado pelo Pasquim dos anos 70, fiquei preocupada. Quem não fica, morando no Rio de Janeiro? Se esfaqueiam os gringos na praia em plena luz do dia, tomando sorvete, que dirá um pobre gato cinza e vira-lata, que já nasce predestinado a se tornar churrasco?

Procurei a semana inteira até que o vi de relance, no telhado, nem te ligo pra um passarinho que antes o fazia dar botes como uma jararaca faminta e abocanhá-lo num átimo de segundo para jogá-lo aos meus pés. Tentei várias vezes convencê-lo de que aquilo era um presente de grego, que me fazia chorar de compaixão, mas ele me olhava orgulhoso, jogando a vítima na minha frente, dramaticamente, como se fosse um tigre do Discovery Channel.

Como não consegui fazê-lo descer, telefonei pro veterinário, que ficou de vir pegá-lo de jeito. Mas não veio, então ele sumiu de vez até que a minha vizinha o encontrou em seu quarto, em cima das almofadas, em frente da televisão. Fingi que não o tinha visto até ligar pra uma pet shop e encomendar uma bolsa de carregar animais. Como os preços variassem de R$ 25 a R$ 180, resolvi chamar meu primo, pegar uma carona com ele de carro até o veterinário, deixar o gato lá e, enquanto isso, comprar a bolsa.

Deixamos o carro na garagem da pet shop, de tal forma que os vários carros de donos de bichos que estavam sendo atendidos não poderiam sair. Aí subimos com o gato, que gritava num moto-contínuo que nem sirene de ambulância. Como estivesse embrulhado numa colcha, só com a carinha de fora, pra não fugir (já que eu ainda não tinha comprado a bolsa), as pessoas achavam que eu o estava sufocando.

- Solta ele, coitado! - disse a dona de um poodle de lacinho azul que cheirava a tartaruga de uma senhora gorda.

- Aí, brother! Vai matar o pobrezinho! - profetizou um pitboy, que aguardava a vez com seu pitbull.

Conheço o meu gado, ou melhor, o meu gato, pra saber que, se saltasse do meu colo, comeria o periquito verde que andava pela varanda junto com o papagaio e a arara vermelha, antes de desaparecer para sempre.

Graças a Deus fomos chamados, meu primo, meu gato e eu para a entrevista com a veterinária.

- Qual é a raça dele? - perguntou a moça.

-Vira-lata - respondi, espantada, pelo óbvio da questão.

A doutora me olhou absolutamente chocada, como se eu tivesse chamado alguém de anão ou aleijado, e pronunciou o apelido politicamente correto de gato vira-lata: ''felino s.r.d.'' , ou seja, ''sem raça definida''. Enquanto isso o gato urrava, e resolvemos, eu e meu primo, sair para comprar a tal bolsa-transporte enquanto a moça lhe dava uma geral.

Fomos a pé, conversando, compramos a bolsa de R$ 25 e meu primo sugeriu que visitássemos umas casas de azulejos antigos ali perto. Entramos em todas as lojas, olhamos azulejo por azulejo e, depois de concluir que antigos mesmo só os sobrados maravilhosos que os abrigavam, resolvemos almoçar. Discutimos Aristóteles, Urbano 2 e as Cruzadas, os projetos do PT que não saem do papel, sabe-se Deus por que cargas d'água, falamos de amenidades e, quando vi um bóxer, a mil por hora, arrastando sua dona que parecia a bordo de um esqui aquático, lembrei-me do gato no veterinário e do carro trancando os outros carros. Dei um grito. Quando chegamos perto da porta do consultório, vi uma fila de pessoas agarradas a animais de todas as espécies, como se estivessem prestes a entrar na Arca de Noé. Os seguranças vociferaram:

- A chave do carro ou chamo a polícia!

Ninguém tinha conseguido sair da pet shop e nos encaravam, furibundos, balançando as chaves de seus automóveis presos pelo nosso. O pitboy, do pitbull, foi o pior. Chegou até a ameaçar tirar a focinheira do bicho pra gente ver o que era bom pra tosse. Um rapaz com um mico no colo com a mesma cabeleira e barba do Che Guevara, que ele trazia estampado na camiseta, dizia impropérios. A senhora distinta que nos tinha visto na sala de espera chamou meu gato de ''s.r.d.''. Então chamei sua tartaruga de velha e o poodle de gay, enquanto o papagaio lá de cima gritava repetidamente: ''Acabou? Acabou?''.

Meu primo foi tirar o carro debaixo de vaia, enquanto me ocupei de meu ''s.r.d.'' e seus curativos na orelha, colocando-o com dificuldade na bolsa-transporte. Entramos no carro (ainda sob vaias) e o gato ligou de novo a sua sirene, que serviu pra que avançássemos todos os sinais até Botafogo, onde, finalmente, descansei em paz.


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[12/NOV/2004]


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