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Lugar de celebridade é no palco ou na cama


Os primeiros artistas que conheci na vida foram um casal de bailarinos que dançava no navio SS Brazil, que ia para os Estados Unidos levando nossa família, de férias. Chamavam-se Michael e Marlene. Acho que eram americanos, não sei, nunca falei com eles, mas os via dançar e só prestava atenção no vestido decotado dela e na sua saia esvoaçante, que, junto com o som de seus saltos com tachinhas, ofuscavam seu discreto par, cuja única função, que eu notasse, resumia-se a levantá-la no ar. Gostava de vê-los, achava-os coloridos e irreais como um par de bonequinhos animados, mas não me atraíam se passavam pelo deque com suas vestimentas normais, causando frisson entre os turistas, que viravam as cabeças, apontando: ''Olha os artistas!''

Depois, era o quarto da cozinheira lá de casa, sempre com as novidades da última Revista do rádio, que trazia, invariavelmente, Marlene ou Emilinha na capa. Dentro, um questionário: Gosto e não gosto, em que os artistas da Rádio Nacional se repetiam em respostas óbvias, tipo ''não gosto de jiló, de sapato apertado'' ou outras bobagens do gênero. Mas a cozinheira endeusava-os como... celebridades.

Já minha mãe achava que celebridades mesmo eram os artistas americanos, que vinham de Hollywood especialmente para o bar do Quitandinha, onde bebiam expostos ao público, numa espécie de aquário. Mamãe apontava-os, dizendo: ''Este é o Cesar Romero'' - cuja escultura de barro colorida, com um chapéu de mexicano, ornamentava a mesinha de cabeceira da babá, junto com São Jorge e São Sebastião, as celebridades dela.

Eu não me interessava nem um pouco por aquelas pessoas desconhecidas. Em matéria de artistas, gostava de Alvarenga e Ranchinho, pela alegria contagiante que causavam nas festas de aniversário minhas e da minha irmã. Mas, pra mim, celebridades mesmo (as únicas que gostava de agradar e de estar perto) eram meu pai e a babá, que me emocionavam às lágrimas, fazendo meu pequeno coração disparar de amor e prazer.

Mais tarde, adulta, na Europa, minhas amigas só faltavam enfartar diante de um Marcelo Mastroianni, de uma Monica Vitti ou da Princesa Soraya, quando estes comiam, tranqüilamente, num restaurante qualquer. Eu detestava aquela tietagem. Uma noite fui jantar com um namorado inglês que levou Mick Jagger e Ringo Starr, no auge da fama, para me impressionar. Não gostei de conhecê-los assim, de perto, desmistificando-os. Preferia-os no palco, esvoaçantes e decotados, como deuses inatingíveis, comunicando-se com o público através da emoção.

Quando fui para o exílio, na Europa, e aluguei minha casa para um amigo, por telefone, às pressas, ele - um decorador famoso na época - trouxe o Jack Nicholson para se hospedar aqui, porque o artista não queria ser visto nem reconhecido por ninguém.

Aqui não tinha perigo. Botafogo não fazia idéia de quem era aquele amigo do meu amigo, que entrava mudo e saía calado. Uma vez, Pelé e Gal também passaram de carro para pegá-lo. Contou meu amigo depois:

- Pelé, o eletricista? - eu teria perguntado, distraída.

- Não. Pelé, o rei! - ele respondeu.

Dessa vez, os portugueses da rua desconfiaram, mas depois acharam impossível que Pelé, o rei, e Gal Costa em pessoa estivessem na minha porta e se desinteressaram de olhar para dentro do carro.

Assim foi também com o Omar Shariff, que fazia parte do grupo em que eu estava, numa estréia de cinema no Méridien. De lá ele convidou a todos para dançar no Regine's, no térreo do hotel.

Ao entrarmos na boate, o ator disse, simpaticamente, ao porteiro, referindo-se a nós:

-They are all with me (ou ''eles todos estão comigo'').

Ao que este respondeu, num inglês ainda mais puro:

- I know them all, but who are you? (ou ''conheço eles todos, mas quem é o senhor?'').

De modo que acho mesmo que lugar de celebridade é no palco ou na cama, depois de criar fama. De preferência, sem passar pelo deque.


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[23/JUL/2004]


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